terça-feira, 22 de julho de 2014

argamassa de linho...Argamassa de linho…

Argamassa de linho…

É de linho a argamassa

Que tece esta manta de nevoeiro.

Não tem traça,

Mas só poalha de cinza etérea.

Vem do alto, como cortina.

Esconde o sol

Enquanto se banha no mar.

Um mar imenso de tinta branca,

Sem ondas,

Onde só o silêncio sopra

Ao desafio.

Oiço as ninfas que voam escondidas.

Espreitando as braçadas de luz

Que o sol vai dando.

São aos milhares delas,

Bem apinhadas.

Querem secar todas as lágrimas de amor

Que já verteram.

Benditas horas estas

Em que o dia nasce.

Tão leve e calmo.

Convidando à vida.

Vou abraçá-lo a mim,

Com toda a força,

Como este fosse o último da caminhada.

Bendita a vida plena

Que eu já vivi…

E as migalhas dela

Que ainda vão cair…

Mafra, 23 de Julho de 2014

6h30m

………………….

nasceu com nevoeiro

………………..

Joaquim Luís Mendes Gomes

mar do passado...

Mar do passado…

Lanço ao mar profundo

Minha linha de pesca longa.

Ao acaso.

Pode ser que vá passando

Um cardume de memórias

Do meu passado.

Quero rever-me,

nem que seja só uma.

A trago à tona.

Fico a olhá-la.

Com estes olhos

Que os anos cansaram.

Era Domingo.

Ao cair da tarde.

Fazia calor.

De Agosto a sério.

A sirene, ao longe,

Começou uivando.

Ininterrupta.

Era um fogo!

Onde seria?

Um pouco mais,

O tilintar insistente das campainhas,

Começou descendo,

De norte para sul.

Estrada da vila.

Foi-se chegando.

Chegou à Forca.

A Pedra Maria.

Virou para cima,

A moto-bomba!

Com seis bombeiros.

Capacetes luzindo.

Perto de mim.

Meu coração batia.

Onde seria?

Passou-me à frente.

E foi para a Bouça da Pia.

Onde moravam os meus avós.



Fui a correr,

Até onde pude.

Uma nuvem negra

Enchia de fumo,

Os montes da Laje.

Que bem conhecia.

O caminho estreito,

Em barroca funda,

Fê-los descer.

Pegar na bomba

E seguir a pé.

Que grande incêndio

Na casa da eira,

A abarrotar de palha.

Não havia mangueiras.

Só a baldes de água.

Havia pânico.

Havia gritos!…

Havia um menino

No meio do fogo.

E vi um homem,

Com uma manta molhada,

A avançar as escadas

E entrar no inferno.

E, mais um pouco,

Com um menino ao colo…

Já era morto.

Nunca mais esqueci!


Mafra, 22 de Julho de 2014

16h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 21 de julho de 2014

seara de vento...

Seara de vento…

Sigo na estrada,

Através duma seara de vento.

Oiço as cigarras, adejando,

Desasossegadas,

E as libelinhas negras.

Poisadas sobre as papoilas.

Esvoaçam baixinho as toutinegras.

Sobre as espigas baloiçantes.

Das nuvens albas, lá no alto,

Jorram rios de luz de prata.

Sobre a terra.

Caem bênçãos infinitas

De energias paralelas.

É o calor, nem mais nem menos.

E a força da gravidade

Que à terra-mãe nos amarra e prende.

É a suavidade da planície,

Um altar de vida,

Exposto ao sol.

É a serra ao fundo,

Muralha imensa,

Que nos doseia o vento

Que em mar de ondas,

Sacode o pólen,

Disseminando as cores.

É o mar ao lado,

Espelhando o céu

Que nos liga ao mundo.

E o tempo na sua voragem

Num comboio apressado,

Nos transporta à força,

Para o fim do mundo…

Mafra, 22 de Julho de 2014

6h49m

Joaquim Luís Mendes Gomes

cacos...

Cacos partidos…

Vivo num mundo de cacos partidos,

Cheios de lama.

Me banho ao sol,

Junto do mar.

Voo nas nuvens,

Sonhos de sonho,

Jornadas sem par.

Carrego em mim,

Todo o peso do mundo.

Conto meus passos.

São mais os que dei

Que os que tenho para dar.

Agora, são as folhas de Outono

Que cobrem meu chão…

"setemomentos" em Mafra, 21 de Julho de 2014

9h46m

Joaquim Luís Mendes Gomes

volta ao mundo...

Volta ao mundo…

Quero dar a volta ao mundo.
Sempre por terra.
Vendo o mar ao perto.

Parto aqui do extremo
Da Hispânia ocidental.
Que o Atlântico banha,
Onde mora Portugal....

Um país com história,
Cheia de glória…
E um presente muito tristonho.
Oxalá no regresso,
O reencontre feliz e alegre.
Liberto desta negra tempestade.

Atravesso Espanha real.
Dos reis católicos.
Muitos castelos.
E catedrais.
À borda o Mediterrâneo azul.
Ligando-a ao longe,
À África deserta.

E uma muralha medonha,
De altos cumes,
Desfiladeiros e precipicios,
Me esconde a França,
Filha da Gália.
Terra das luzes.
E dos monges da terra.
Desde a idade média.

Tantos palácios e campos verdes,
Cheios de vinho.
Um mar ao norte, frio
E um quente ao sul.

Espreito a Itália,
Com Roma e o Vaticano.
A Sicília ao fundo.
Cara e coroa da mesma medalha.

Olho a Grécia azul e branca,
Terra de Ulisses
E do pensamento profundo,
Com Aristóteles.
Deitada ao mar.
Em letargia.

Vem a Turquia
E a Macedónia,
Ásia menor,
Com Istambul,
Flâmula de sonho
A arder de cor.

Vem o Egipto dos faraós
E o Monte Sinai
Onde Deus falou…
Ditando a Lei.

E chego à Índia,
Terra sem fim.
Com tantas castas de sangue,
Tantos matizes…
Em combustão perene.

Ao longe, o oriente pleno.
Vai do norte ao sul,
Que grande massa.
Alto Everest.
E os Himalaias.
Terras de neve.
Onde fumos não há.
O corpo não conta…
Só o pensamento.
Como ensinaram
Todos os Budas.
Que lá viveram.

Mafra, 21 de Julho de 2014
6h30m

ouvindo as cordas de André Rieu

Joaquim Luís Mendes Gomes
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segunda-feira, 14 de julho de 2014

nevoeiro no mar...

Nevoeiro no mar…
As sirenes à beira-mar,
Deseperadas, não páram de apitar.
Uma carapaça bassa e densa,
Como armadura,
Se armou.
Não há setas nem flechas agudas
Que lhe entrem.
Que é feito daquele gigante irado,
Tão impante nas suas vagas,
Para onde fugiu
Que ninguém o vê?
Só se ouve estertores,
Dum moribundo,
Arfando a morte,
Arrependido e humilhado.
Um lençol em pano,
O envolve à volta,
Como se fosse
A sepultar.
As gaivotas, aos bandos,
Carpideiras,
Fazem arcos sobre a areia.
Estonteadas com seu destino.
Grasnam…grasnam…
Sem parar,.
Tão aflitas
Que hão-de dar aos seus filhinhos,
Há tantas horas as esperam,
Biquinho seco tão aberto,
Se foi para isto
Que vieram ao mundo…
Mais valia não terem nascido.
E as mulheres dos pescadores,
Nas suas casas,
Embrulhadas em mantos negros,
Velas a arder,
Ajoelhadas frente à Senhora
Que também foi esposa
E também é Mãe,
Fazem promessas…
Rezam Ave-Marias,
Clamando em sofrido pranto,
Faça um milagre
E lhes acuda a seus maridos…

Berlim, 15 de Julho de 2014
5h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 13 de julho de 2014

quem põe e dispõe...

Quem põe e dispõe…

Quem indica o caminho.

Põe e dispõe,

É o Pastor

Que criou a montanha,

Sabe o que fez,

De varinha na mão.

Tem o poder

De dar e tirar.

Na hora que escolhe,

Sabendo bem o que faz.

E porquê.

Ninguém fica a perder.

Porque nos criou por Amor…

Berlim, 14 de Julho de 2014

6h20m

Joaquim Luís Mendes Gomes