segunda-feira, 28 de julho de 2014

lufadas de música...

Lufadas de música…

Nesta tarde de alvoroço,

Uma enxurrada de música,

Rasgada em farrapos,

De tons variados,

Tolda minha alma.

Anestesia-me a dor.

Gela-me o rio

Que corre no fundo.

Lava-me a lava.

Vulcão apagado.

Quase cadáver.

Esquecido,

Na berma da estrada.

Mendigo pedinte faminto.

Morrendo de frio

E de fome.

Nem migalhas sobram

Desta mesa deserta de pão.

Apagou-se a lareira.

A lenha que havia

Acabou no inverno.

Agora, só caruma em rama

Que arde, carregada de fumo.

Ardem os olhos.

O peito sufoca.

Regelham as pernas.

E a manta molhada nas costas.

Mesmo com chuva de música…

Mafra, 28 de Julho de 2014

15h33m

Joaquim Luís Mendes Gomes

pedras e cacos...

Pedras e cacos…

Com pedras e cacos,

Se fazem castelos.

Muros de quintas.

Se tapam buracos.

Saem lavados

Do leito dos rios.

Fazem-se rimas.

Pirâmides ao sol.

Tapetes na estrada.

Com lava de pês.

Muitos quilómetros,

Descendo e subindo.

Com forma de ovos,

Pedaços de telhas.

Barro vermelho,

Seco ao sol.

Cascalho em bocados,

Cobrem rotundas

E praças vermelhas.

Devoram a chuva.

Que se infiltra na terra.

Com os passos

Do tempo e dos anos,

Se ficam areia seca

Da praia

E molhada no leito dos rios.

Mafra, 28 de Julho de 2014

14h29m

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 27 de julho de 2014

vidraças partidas....

Vidraças partidas…

Desfizeram-se em cacos os vidros
Das minhas janelas.

Entra-lhes o vento e o frio.
Fico gelado.
Entram-lhes as moscas.
Fico aflito.
...
Chove cá dentro.

Se cerro as portadas,
Fico sem luz-
Apenas da telha de vidro
Que pus no telhado.
Não vejo o céu.
Só há uma gata que espreita.

Fiquei eremita forçado.
Penso e medito.
Revejo o passado.

Futuro, só abrindo a porta,
De mala aviada.
Ficou impossível viver.
Prefiro uma toca na serra,
À solta.

Mafra, 28 de Julho de 2014
6h40m
Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 26 de julho de 2014

baile de máscaras...

Baile de máscaras…

Ninguém se contenta com o que tem.

Donde vem esta queda para esconder.

Será medo? Que outros olhos vejam

A verdade toda sobre a gente?

Com fumaradas coloridas,

Muito traço sobre o rosto,

E muita máscara,

Vai a rua cheia,

Em cortejo.

Tanto sorriso aberto

Disfarçando tantas tristezas.

Tantos passos de elegância,

Simulando serenidade.

Tanta pressa e vontade de alcançar.

Fumos fátuos.

Chamas frias e sem calor.

Não há abraços.

Há só passes.

Salamaleques

Muitas vénias impertigadas.

Muito charme encomendado.

Uma praça triste de nudistas

Engalanados.

Uma orquestra deslumbrante,

Com as cordas todas partidas.

É a feira das vaidades num salão em reboliço.

O avesso da paz e da verdade,

Onde brota a transparência…

Mafra, 27 de Julho de 2014

7h55m

Joaquim Luís Mendes Gomes


manchas e nódoas...

Manchas e nódoas…

Não deixam de ser glaciares

Aquelas montanhas de neve

Que cobrem os polos da Terra,

Com algumas refegas negras.

Não deixa de ser azul

O céu,

Com algumas nuvens voando.

Nem o mar sereno

Com alguns arrufos

De tempestade.

 

Não se perde um concerto ao piano,

Tocado por mãos divinas,

Se houver uma nota em falso.

E a felicidade que nos banha alma,

Com uma névoa de dor no corpo.

E um copo de vinho bom,

Mesmo que lhe caia dentro

um cisco…

O bem é bem, porque o mal existe…

Senão, tudo seria igual.

 

Que seria das montanhas belas

Se tudo fosse uma planície verde?

E do arroz de forno

Que não deixa esturro?

A harmonia total

Nunca existiu

Nem existirá…

Calor sem frio…

O que seria?

Não á alegria perene

Sem uma mancha de tristeza.

Quão enssonsa seria a vida

Se não tivesse dias de alguma angústia…

Como é bom chegar a casa

Depois duma longa ausência!…

Mafra, 26 de Julho e 2014

7h51m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 25 de julho de 2014

outra forma de caminhar...

Outra forma de caminhar…

Vou caminhar para o Oriente.

Para o ponto da Terra extrema.

Onde a Terra quase chega ao céu.

Onde o ar é leve e imponderável.

Como o pensamento que nem Deus teme.

Onde os homens se encontraram consigo.

Explorando forças humanas que adormeciam.

Vou ver o sol a sair do berço,

Esfregando os olhos para mais um périplo.

Onde os rios fluem silenciosos,

E chegam ao mar com muitos braços.

Vou sentir as monções dos ventos

Despejando chuva e trovoada.

Vou à Malásia e a Singapura.

Vestir as cores gritantes do arco-íris.

Ouvir chinês com mariscada.

Perder-me só nas multidões.

Vou suspirar pelo regresso breve

A este cantinho de sol

E molhar os pés,

À beira-mar…

Onde tudo vai bem,
Apesar de tudo!...


 

Mafra, 25 de Julho de 2014,

20h17m

Joaquim Luís Mendes Gomes