quinta-feira, 31 de julho de 2014

descansar dormindo...

Descansar dormindo…

Metade da vida,

Desde o nascer ao morrer,

É passada a dormir.

Como lei natural,

Este movimento ondulatório,

Que é geral.

Tudo condiciona.

Seria inferior a viagem na nossa vida,

Se não houvesse estas paragens.

Uma viagem longa na autoestrada,

Requer pausas de hora a hora.

As faculdades do corpo se cansam

Tão depressa,

Como a gazolina no depósito.

Com uma diferença.

Sem ela o carro não anda.

Sem descanso,

É o colapso certo

E a desgraça na estrada.

Até o sol o sabe,

Ao provocar a noite.

Para haver descanso

E o dia volte.

Mafra, 1 de Agosto de 2014

5h39m

Joaquim Luís Mendes

uma tigela de sopa...

Uma tigela de sopa…
  • Pelas alminhas de quem lá tem!…



Exclamava o velho andrajoso.

Que vivia sózinho no mundo.

Tivera dez filhos.

Todos casados.

Espalhados no mundo.

Nunca mais se interessaram.

Vivendo das esmolas.

E das migalhas de pão.

Uma malga de caldo

Daqui e d’além.

Só tinha um saco.

Com o retrato da Mãe.

Que estava no céu.

Com ela falava.

A todas horas.

Sentia-se menino.

Como quando nasceu.

Vivia rezando.

Olhando para o céu.

Esperando a hora

De subir para lá.

Sorria para as crianças

Que iam para a escola.

Contava-lhes histórias

Que os prendiam a ele.

Num dia de frio,

Sem ter onde dormir,

Foi um mais atento

Que lhe valeu.

Levou-o para casa.

Falou dele a seus pais.

Arranjaram-lhe uma cama,

Junto à corte de gado.

Estava quentinho.

Aí ficou a dormir.

Durante o inverno.

Sentiu-se no céu.

Ao almoço e jantar,

Uma tigela de sopa.

Um naco de pão.

Lhe levava o menino.

Enquanto viveu.

Aquele menino até podia ser eu…

Mafra, 31 de Julho de 2014

2027m

Joaquim Luís Mendes Gomes


quarta-feira, 30 de julho de 2014

relíquia...

Relíquia…

É de mim.

Fez-me assim a natureza.

Não sou arrumado.

Tenho de fazer um esforço.

Como quem puxa um arado.

Ou um arrastão no rio,

Contra a corrente.

O que por mim passa,

Passou. Na hora se foi.

E eu fiquei.

Mas, à medida que tudo passa,

Nesta velocidade de vertigem,

Meus olhos se prendem ao longe.

Naturamente. Em busca de suas raízes.

Preciso delas para respirar.

É lá que estão as minhas chaves para tantas portas.

Cada vez estou mais à nora.

É tanta a ventania.

Sopram ventos de confusão.

Em todos os planos.

Se escaqueiraram as plataformas.

Pareciam d’aço.

Para durar até à morte.

Foi outra a sorte.

O homem complica tudo.

Na voragem de dominar.

Cria teias.

Dá laços e cegos nós.

Para apertar e avassalar.

Afinal, o segredo está na simplicidade

E na verdade

Do que é natural.

Somos iguais e companheiros

Da mesma romagem.

São aparentes as distâncias

Que emergem da arquitectura.

É mesma a massa.

Mesmos sonhos e anseios

Ardem cá dentro.

Precisamos uns dos outros

Para não irmos sózinhos.

Amar não seja nunca só

Uma relíquia…

Mafra, 31 de Julho de 2014

7h3m

Joaquim Luís

terça-feira, 29 de julho de 2014

Passagem de nível…

Passagem de nível…

Onde um comboio atravessa uma estrada ou caminho,

Diz-se.

Há uma passagem de nível.

Uma campainha que toca.

Uma cancela que fecha.

Uma bandeirinha a voar.

E o comboio apitando,

Lançando fumo para o ar,

Lá segue,

Atravessando campos e bosques.

Rasga-se escarpas nos montes.

Faz-se furos na serra.

Lança-se pontes nos rios.

Para sua excelência passar.

Mas, onde está o desnível,

Se está tudo no mesmo plano,

Nem sequer deixa pégadas?…

 

Mafra, 30 de Julho de 2014

6h28m

Joaquim Luís Mendes Gomes

copo de água...

Um copo de água…

Tão simples…como um copo de água.

  • Ó Quinzinho. Dava-me um copo de água?

Vinham dos campos,

Bem lá do fundo.

Rosto vermelho.

Suor correndo.

Açafate à cabeça,

Com as verduras verdes

Da sua faina.

Eram os grelos.

O feijão verde.

Cebolas. Alhos.

Por vezes pintos

E mesmo galinhas.

A caminho da feira da vila.

Arranjar dinheiro era preciso.

Para o azeite e o petróleo.

Não era preciso muito,

Se não havia doença.

  • O Senhor lhe pague!
  • Pelas alminhas de quem lá tem!...

Como tudo era simples.

Tudo tão puro.

E verdadeiro.

Brotava da alma.

  • Vá com Deus! .- era a resposta do Quinzinho do padre.

Era alfaiate.

Já foi há tanto!…

Tudo tão simples e puro,

Como o tempo e o sol.

Havia perfumes com cor

Por todos os lados.

Saíam da terra

Que o arado arava.

As flores cresciam à solta,

Pelas bordas dos caminhos.

Tudo sorria.

Havia festa.

Por cima, o céu…

Por baixo a terra.

Ó que harmonia!

Que água tão fresca!…

Mafra, 29 de Julho de 2014

6h53m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

lufadas de música...

Lufadas de música…

Nesta tarde de alvoroço,

Uma enxurrada de música,

Rasgada em farrapos,

De tons variados,

Tolda minha alma.

Anestesia-me a dor.

Gela-me o rio

Que corre no fundo.

Lava-me a lava.

Vulcão apagado.

Quase cadáver.

Esquecido,

Na berma da estrada.

Mendigo pedinte faminto.

Morrendo de frio

E de fome.

Nem migalhas sobram

Desta mesa deserta de pão.

Apagou-se a lareira.

A lenha que havia

Acabou no inverno.

Agora, só caruma em rama

Que arde, carregada de fumo.

Ardem os olhos.

O peito sufoca.

Regelham as pernas.

E a manta molhada nas costas.

Mesmo com chuva de música…

Mafra, 28 de Julho de 2014

15h33m

Joaquim Luís Mendes Gomes

pedras e cacos...

Pedras e cacos…

Com pedras e cacos,

Se fazem castelos.

Muros de quintas.

Se tapam buracos.

Saem lavados

Do leito dos rios.

Fazem-se rimas.

Pirâmides ao sol.

Tapetes na estrada.

Com lava de pês.

Muitos quilómetros,

Descendo e subindo.

Com forma de ovos,

Pedaços de telhas.

Barro vermelho,

Seco ao sol.

Cascalho em bocados,

Cobrem rotundas

E praças vermelhas.

Devoram a chuva.

Que se infiltra na terra.

Com os passos

Do tempo e dos anos,

Se ficam areia seca

Da praia

E molhada no leito dos rios.

Mafra, 28 de Julho de 2014

14h29m

Joaquim Luís Mendes Gomes