terça-feira, 5 de agosto de 2014

ao cair da tarde...

Ao cair da tarde...

Fui deitar-me à beira do rio.
Estendi a manta.
Fiquei absorto a olhar.
Ouvindo o marulhar da água.
As aves cansadas.
Juntando a família.
Para se irem deitar.

As árvores bailando,
Com o vibrar da brisa.
Ouvindo os galos.
Perdidos na aldeia.

Os sinos plangentes,
Cantando as trindades.
Os lavradores, camisas suadas,
Carregando as enxadas,
Com que cavaram o pão.

As noras tangidas pelos bois,
Rangendo os dentes.
Regando a terra.

O sol se deitando,
Com as asas partidas.
Soltando gemidos,
Esperando o luar.

As chaminés soltando volutas,
Enchendo as nuvens,
Com fumo saindo.

Benditas as horas
Duma tarde tão calma,
Que eu vivo deitado.
Sonhando e revendo.

Sossego minhas pernas,
Meus braços cansados.
Meu peito arfando,
Irradiando calor.
E fico pensando.
Como é bom
Viver numa aldeia,
Onde as horas são gotas
Dum rio correndo.

Tarde de sol...

Mafra, 5 de Agosto de 2014
20h28m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

espinhos...

Espinhos…

Se a sardinha não tivesse espinhas,

O que valia.

Mesmo assada.

E, se a estrada

Que nos transporta distante,

Fosse uma recta,

Sem subida

E sem curvas.

- Que seca seria!

E, se a vida fosse mais doce

Que uma geleia,

Fosse que fosse a fruta.

  • Uma compota ou gelatina!

E se na tropa a valer,

Só houvesse generais,

Como seria a parada?

Uma pobreza.

Uma derrota!

A vida sem espinhos…

Perde o sentido.

  • Dá gosto tirá-los.

O dia nasceu cinzento…

Mafra, 5 de Agoto de 2014

7h40m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

a última flor...

A última flor…

Não vou colher a última flor

Do meu jardim.

Quero vê-la cada manhã,

Ao nascer do sol.

Rever nela, as centenas de outras

Que ali cresceram

E brilharam,

Regalando os olhos

De quem passava

À minha porta.

É nas coisas mais simples

Que a natureza se impõe.

Não é com coisas grandes,

Muito complicadas,

Que a vaidade cria.

Essas estiolam.

Se estilhaçam no chão,

Se reduzem a lixo

E cheiram mal.

A pureza, só na água da fonte,

Que nasce das rochas.

O perfume não surge das químicas.

Por mais apuradas.

Brota das pétalas

Dum jardim florido.

A beleza mora nos olhos,

O espelho da alma.

Mafra, 4 de Agosto de 2014

18h22m

tarde soalheira de praia

Joaquim Luís Mendes Gomes



via láctea...

Via Láctea…

Gostava de sair da Terra

E ir morar na Via Láctea.

Onde mora o São Tiago.

É outro mundo.

De muita paz,

Iluminado.

Sempre em festa.

Com muitas estrelas,

Rainhas belas,

De diadema,

Bem adornadas.

Outros sóis

Acendem o mundo.

Avenidas largas,

Sem nenhum trânsito,

Limpas de fumo.

Sem polícias

A darem multas.

Sem acidentes

E ambulâncias.

Sem as scuts…

Há um anjo a servir de guia.

Nos transporta gratis

E sorridente,

A toda a parte,

A qualquer hora.

Sempre presente.

Não há pontes

E não há rios.

Não há chuva e não há neve.

Onde os anos não têm dias.

Não há têvês,

Nem telejornais.

Não há guerras.

Sem tiranos a governar.

Porque o dinheiro

Nunca existiu.

É só um sonho!…

É a via da eternidade…



Mafra, 4 de Julho de 2014

8h2m

nasceu com sol a raiar…

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 3 de agosto de 2014

minha fuga...

Minha fuga…

Vou fugir para a rua,

Esperar a hora que vem

E que passa.

Não levo lanterna.

Não levo candeia.

Só estes olhos atentos

E uma alma sedenta

E com fome,

De harmonia e de paz.

Que na solidão não há.

Quero sorrir e sentir,

No fundo dos olhos,

Sorrisos escondidos

Que tardam a abrir.

Sentir o calor de quem vai

E quem vem.

Ouvir dos seus sonhos,

Seus males também.

Aprender com os outros

O que não aprendi com ninguém.

Não procuro miragens.

Na terra ou no ar.

Quero sentir as pisadas

De cada passo que der.

Quero agitar águas paradas,

Lançando pedradas,

Se for necessário.

Sempre por bem.

E ver com meus olhos

O que pensam de mim.



Quero regressar mais rico e sereno.

Porque, da minha fuga,

Alguma coisa mudou

Para melhor.

Mafra, 3 de Agosto de 2014

17h47m

com o sol a brilhar

Joaquim Luís Mendes Gomes

lampejos do silêncio...

Lampejos no silêncio…

É no silêncio do interior

Que reverdescem as ideias lindas.

Como lampejos a sorrirem.

Vêm de longe.

Das profundezas de nós mesmos.

Um mar imenso, tecido de ondas.

Encadeadas.

Como elos.

Umas mansas. Outras bravas.

Nos dão tendências.

Formas de ser.

O nosso molde.

A nossa marca.

São gostos.

Reminiscências.

Terras já vistas.

Onde e quando.

Ninguém sabe dizer.

  • Deste eu gosto…
  • Daquele não.
  • Porque será?…

Olhos castanhos. Esverdeados.

Cabelos negros corridos.

Como veias de água

Duma fonte distante.

Aquele sorriso aberto.

Sempre presente.

Uma casa cheia.

Vem do passado.

Um punhado de tudo

Nos enche o ser.

Donde vivemos a cada instante.

É a nossa cor.

Nossa maneira de estar.

Grande mistério.

O mar do amor…

Mafra, 3 de Agosto de 2014

7h00

dia cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes