sexta-feira, 8 de agosto de 2014

camisa de flanela...

camisa de flanela...

Nao sei porquê.
Sinto-me fascinado
Pelas camisas de flanela.

Aquelas que os poveiros,
Pescadores de voz roufenha,
Usavam, quando me davam banho,
Pelas sete horas de cada manhã.

Eram em xadrês.
Um tecido espesso,
Parecia lã.

Aquele abraço quente,
Depois do mergulho,
Contra um peito possante,
A entregar-me à Mãe.

Aquela voz rouca
Que me consolava
Da pequenina maldade
Que me tinham feito,
Talvez sejam a razão
De gostar tanto delas.

Por me sentir o centro
Das atenções do mundo.
A quem, menino tenro,
A tremer gelado,
Mesmo sem ser poveiro,
Eu já queria tanto...

Do que me fui lembrar.
Nesta manhã de Agosto,
Daquele tempo tão lindo,
Em que íamos para a Póvoa,
Onde havia o mar!...


Mafra, 9 de Agosto de 2014
7h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

lareiras...

Clareiras...

Volta e meia,
no meio dos negrumes,
A vida dá-nos uma clareira.

Deixa ver o céu.
Sem nuvens.
Tão azul como o mar.

Apetece voar por ele.
E dar a volta ao mundo.

Ver como falam
E vivem outras gentes.

Como palmilham esta terra.
Suas casas. Seus anseios.

Se olham o futuro verde
e têm saudade do passado.
Vivem numa clareira.

Ou, pelo contrário,
tudo maldizem.
Têm negrumes
como nós.

Como foi a sua história.
Suas páginas de glória.
Ou de sangue e luta
como foi a nossa.

Hordas bárbaras, irrequietas.
Como vagas sanguinolentas,
Varrendo a Europa inteira,
De leste a oeste.
Corsários selvagens do alto mar.

Com Idade média
E idade moderna.

Ora orando,
Ora estudando.
Do que somos
e para onde vamos.


Enchendo os campos de muralhas.
Erguendo ao alto as catedrais.
Fabricando carros e aviões.

Em vez das sendas calmas,
Pelos montes,
De enxada ao ombro,
Colhendo o pão.
De cada dia.

Numa terra imensa
que é redonda,
Um terço em terra,
o resto em mar.
Que anda perdida
no universo,
Azul bolhinha de sabão,
Com clareiras, cheias de cores...


Mafra, 8 de Agosto de 2014
6h19m
Joaquim Luís Mendes Gomes

fascinação dos velhos...

a fascinação dos velhos...

para onde vá há velhos.
que foram novos,
há bem pouco tempo.

bem me lembo. sou um deles.
não uso bengala.
não sobram as minhas forças.
e os ossos me rangem ocultos.

não uso bengala.
minhas rugas são as fendas
por onde se esgotou
a juventude.

uso óculos de ver ao perto.
e oiço bem.
no resto, sou igual a eles.

meus olhos brilham
de tanto encanto.
reparo em tudo
que os novos não vêm.

crianças sorriem.
parecem estrelas.
as flores silvestres
me falam de si.

subo escadas,
a algum custo
e dou a mão
a quem me pede ajuda.


e conto histórias
aos meus netinhos.
em troca de beijos.
me calam fundo.

me estendo na cama,
ao cair da noite.
rezo pelas alminhas
do purgatório.

sonho com anjos.
como uma criança.
ao raiar da aurora,
desperto para a vida.
enquanto as forças
não disserem não.

bendita a sorte
de chegar a velho.
sou tão sábio
como nunca fui.

roda da vida
que nunca mais pára.
graças a Deus!...

Mafra, 7 de Agosto de 2014
20h23m
Joaquim Luís Mendes Gomes

ao contrário...

de trás para a frente...

Por vezes, a vida erra o sentdo.
tudo sai errado.

Mais vale fechar os olhos.

Fingir que vai tudo bem.
Fazer de conta.
Deixar andar

À espera que tudo acerte

Com gente tola
Ninguém se meta.

Contornar é a estatégia certa.

Tudo muda.
Até a sorte.
Anda de roda.

Toca a todos.
Às vezes, não.
E também se cansa.

Só vencem os espertos...

Mafra, 7 de Agosto de 2014
15h0m

Joaquim Luís Mendes Gomes

fascinação dos velhos...

de trás para a frente...

Por vezes, a vida erra o sentdo.
tudo sai errado.

Mais vale fechar os olhos.

Fingir que vai tudo bem.
Fazer de conta.
Deixar andar

À espera que tudo acerte

Com gente tola
Ninguém se meta.

Contornar é a estatégia certa.

Tudo muda.
Até a sorte.
Anda de roda.

Toca a todos.
Às vezes, não.
E também se cansa.

Só vencem os espertos...

Mafra, 7 de Agosto de 2014
15h0m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 5 de agosto de 2014

ao cair da tarde...

Ao cair da tarde...

Fui deitar-me à beira do rio.
Estendi a manta.
Fiquei absorto a olhar.
Ouvindo o marulhar da água.
As aves cansadas.
Juntando a família.
Para se irem deitar.

As árvores bailando,
Com o vibrar da brisa.
Ouvindo os galos.
Perdidos na aldeia.

Os sinos plangentes,
Cantando as trindades.
Os lavradores, camisas suadas,
Carregando as enxadas,
Com que cavaram o pão.

As noras tangidas pelos bois,
Rangendo os dentes.
Regando a terra.

O sol se deitando,
Com as asas partidas.
Soltando gemidos,
Esperando o luar.

As chaminés soltando volutas,
Enchendo as nuvens,
Com fumo saindo.

Benditas as horas
Duma tarde tão calma,
Que eu vivo deitado.
Sonhando e revendo.

Sossego minhas pernas,
Meus braços cansados.
Meu peito arfando,
Irradiando calor.
E fico pensando.
Como é bom
Viver numa aldeia,
Onde as horas são gotas
Dum rio correndo.

Tarde de sol...

Mafra, 5 de Agosto de 2014
20h28m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

espinhos...

Espinhos…

Se a sardinha não tivesse espinhas,

O que valia.

Mesmo assada.

E, se a estrada

Que nos transporta distante,

Fosse uma recta,

Sem subida

E sem curvas.

- Que seca seria!

E, se a vida fosse mais doce

Que uma geleia,

Fosse que fosse a fruta.

  • Uma compota ou gelatina!

E se na tropa a valer,

Só houvesse generais,

Como seria a parada?

Uma pobreza.

Uma derrota!

A vida sem espinhos…

Perde o sentido.

  • Dá gosto tirá-los.

O dia nasceu cinzento…

Mafra, 5 de Agoto de 2014

7h40m

Joaquim Luís Mendes Gomes