segunda-feira, 18 de agosto de 2014

no fio da navalha

no fio da navalha...

a vida não caminha em estrada larga.
por vezes, avenida formosa e florida.
outras, viela estreita,
sinuosa e escurecida.

deslizando lenta e suave,
em planície.
alcandorando fragas íngremes,
cheias de abismos.

nossa alma caminha nela.
ora cheia. de entusiasmo.
exalando sonho e fantasia.

ora tristonha.
fingindo cara alegre.
bem lá no fundo,
sem alegria.

sem um rumo claro
e um bom plano.
uma bússola, sempre à mão,
o mais certo é extraviar-se
por atalhos atractivos,
sedutores e luzidios,
no final,
são um desastre.

nada pior que a solidão,
por companhia.
se fica fraco.
absorto e uma presa fácil.

partilhar e conviver.
ouvir e dar.
areja a mente
e alimenta a vida.

ninguém tudo.
é no todo que
mora a riqueza.
o que me sobra
faz falta a alguém.

só assim,
tem gosto a vida.
que é sempre bela
e cheia de cor...

ouvindo Mozart, piano concerto, por Valentina Lisitsa

Mafra, 19 de Agosto de 2014
5h16m
.........
ainda escuro...não sei o que vai dar
...................

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 17 de agosto de 2014

fato completo

 fato completo


com a linha do meu pensamento,
fiz um grosso novelo,
enrolado às cores.

lancei o tear,
horas a fio.
saíu fazenda tão fina
que deu
para os fatos da casa
e ainda sobrou para oferecer
aos amigos do face,
a seu gosto e medida
e pronto a vestir.

O resto vai de encomenda
para os quatro cantos do mundo.
Basta pedir.

cada um seu feitio.

aqui, um terno,
a preceito.
camisa e gravata.

além, uma túnica,
larga e comprida,
voamdo à solta.

acolá um turbante,
tapando do sol
e da areia escaldante.

Ali, um sari,
de todas as cores,
colado ao corpo,
voando ao vento.

Das sobras e trapos,
teci uma manta,
a estendo no chão
reúno os amigos,
e com vinho e pão
e mais qualquer coisa,
passamos horas alegres,
cantando e sorrindo,
tocamos viola,
há sempre um fadista,
e jogamos às cartas,
madrugadas sem fim...

Mafra, 18 de Agosto de 2014
6h28m
........
já não está negro o céu
.........
Joaquim Luís Mendes Gomes




pisadas na areia...

pisadas na praia


abeirei-me do mar.
para molhar os meus pés.
as ondas suaves
chegavam em bando.
refrescavam-me as pernas
e meu corpo ardendo.

num lume tão brando
enchiam-me o peito,
me faziam sonhar.

minhas passadas molhadas
ficavam esculpidas
na tela da areia.
brilhando ao sol.

minha alma cantava
melopeias de amor.
uma chuva salgada,
caindo do céu.

havia gaivotas em bandos,
pairando contentes,
mirando mais fundo.
procurando alimento
para levar para o ninho.

voltei para casa.
peito tão cheio.
me estendi ao comprido
e fiquei a dormir...

Mafra, 17 de Agoto de 2014
19h19m
Joaquim Luís Mendes Gomes



sábado, 16 de agosto de 2014

transfiguração

Transfiguração...

rasguei o meu corpo
aos pedaços.
como se faz a um palhaço
ou a um boneco de trapos.

ateei-lhes o fogo
ficaram em cinzas.

atirei-as ao vento.
voaram no céu.
veio a chuva.
cairam no chão.
viraram sementes
de vinho e de pão.

foi o melhor que eu fiz.
sacio a fome e a sede.

palhaço ou boneco não sou...

ouvindo Mendelsshn

Mafra, 17 de Agosto de 2014

com o sol a subir

Joaquim Luís Mendes Gomes

tigre enjaulado

tigre na jaula...

espumando de raiva,
dum lado para o outro,
corro incessante,
feito maluco,
à procura da porta.

é tudo igual.
não vejo sinal
de fresta ou cadeado.
tudo cerrado.

olho para o céu.
por onde sair,
está carregado.
estou muito pesado.
um rasto comprido,
faltam-me asas.

só cavando uma cova.
bem funda,
em busca da veia.
o chão é de brita.

não vou desarmar.
o melhor é esperar.
algo aconteça.

um raio de sol.
derreta o arame.
um anjo do céu.
a chave apareça.

não é a primeira.

outras já foram.
piores do que esta.

o vento soprou.
a chama acendeu.
uma fornalha de fogo.
inflamou todo o mundo.

um lago de sonhos.
oceano profundo.
o sinto em mim.
é meu destino.
fera amansada.
carregado de fé.
é de lá que eu venho.
é para lá que eu vou.

ouvindo Brahms

Mafra, 17 de Agosto de 2014
7h9m

amanhecendo com promessas de sol

Joaquim Luís Mendes Gomes
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ondas de vento...

ondas de vento...

adormeço com as ondas do vento,
queme entram docemente,
pelas minhas janelas dentro.

fazem-me sonhar
com outros tempos
e os ventos em tempestade.

os que derrubavam os ramos tenros
e as árvores que os seguravam.

davam lenha.
um regalo caro
que saía grátis.
era só apanhá-los
em grandes braçadas.
ó que regalo vê-los arder secos,
sem deitarem fumo.

e daquelas noitadas quentes,
à volta da lareira,
em família doce.

o avô ao canto,
dormitando alegre
com tanta paz,
vinda dos céus.

aquelas histórias
contadas com tanto ânimo.
dos antepassados
que se foram embora.

tanta saudade ali ardia.
tanta paz caía em cinza
sem faúlhas de maledicência.

brilhavam os olhos.
no rosto dos pais.
e nós pequenos,
fazíamos jogos
do esconde-esconde,
naquele espaço,
um mundo inteiro.

agora o vento
é vendaval.
tudo esfarrapa.
sem escolher a quem.

leva as telhas.
destroi em cacos
os trastes dos pobres.
poupando os ricos.

algo vai mal,
neste mundo sem rosto
onde reina o mal...

Mafra, 16 de Agosto de 2014
19h19m
 ao cair da tarde com sol

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

rampa de lançamento...

Rampa de lançamento...

Abeiro-me, erguido,
em bicos de pés,
de braços abertos,
cada manhã,
e lanço-me à vida,
com tormenta ou bonançosa.

Espero o vento
e deixo-me ir nas suas asas.
por esse mundo.
desço, subo correndo
pelas encostas, pelas fragas.
sobre os abismos.

regalo estes olhos
com as cores
que matizam um quadro,
imenso e rico,
onde peleja a humanidade.

traço rotas nos escaninhos do pensamento.
oceano inesgotável
que banha nossa alma.
onde abundam sonhos lindos
em cardume.

declamo alto os meus versos.
umas vezes ricos,
e muitas, muito pobres.
que me brotam em brasa,
cá de dentro,
com a mensagem
que na hora me ressoa.

Fico orando cheguem sempre
ao sítio certo
e, humilde e grato,
fico à espera de ouvir,
dum só que seja,
um brando eco...

Mafra, 16 de Agosto de 2014
6h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes