terça-feira, 19 de agosto de 2014

traços vermelhos

traços vermelhos

com traços vermelhos
se desenham perfis,
no firmamento estrelado
e o nome das gentes da terra
que sangram inocentes
na hora que passa.

nunca se viu tanto progresso
e tanta desgraça.
sobra riqueza no bolso de poucos
e falta o pão na mesa de tantos.

a violência mortal
e a maldade feroz
ensanguenta os fracos
pela mão dos mais ricos.
vorazes avaros,
sedentos e cegos.

tanto se estuda,
investiga e se lê.
a terra já não chega,
se avança para o espaço.

a ambição do poder
impera no mundo
não olha a meios.
desafia a lei natural.

quando será que se pára?

só o juizo final
do Senhor do poder!...

noite cerrada. não dá para ver

hotel Ibis, em Santa Maria da Feira
20 de Agosto de 2014
5h24m
Joaquim Luís Mendes Gomes


tarde calma

tatarde calma

tremo gelado
neste cair de tarde calma

as forças desfalecem.
perante esta enorme chuva de felicidade.

mme agasalho com uma manta espessa de silêncio
e oiço o cantar dos passarinhos,
neste bosque delicioso.

sorvo o ar que fervilha em borbotões.

Meus olhos esplandescem.
Como estrelas de alegria

afinal, é bom estar vivo
para viver a vida em abundância.

vermelha como o pôr do sol
sobre este mar calmo
quase dormente.

Irei dormir na paz dos anjos,
porque o céu é mesmo aqui ao lado.

hotel Ibis em Santa Maria da Feira,
19 de Agosto de 2014
29h38m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

no fio da navalha

no fio da navalha...

a vida não caminha em estrada larga.
por vezes, avenida formosa e florida.
outras, viela estreita,
sinuosa e escurecida.

deslizando lenta e suave,
em planície.
alcandorando fragas íngremes,
cheias de abismos.

nossa alma caminha nela.
ora cheia. de entusiasmo.
exalando sonho e fantasia.

ora tristonha.
fingindo cara alegre.
bem lá no fundo,
sem alegria.

sem um rumo claro
e um bom plano.
uma bússola, sempre à mão,
o mais certo é extraviar-se
por atalhos atractivos,
sedutores e luzidios,
no final,
são um desastre.

nada pior que a solidão,
por companhia.
se fica fraco.
absorto e uma presa fácil.

partilhar e conviver.
ouvir e dar.
areja a mente
e alimenta a vida.

ninguém tudo.
é no todo que
mora a riqueza.
o que me sobra
faz falta a alguém.

só assim,
tem gosto a vida.
que é sempre bela
e cheia de cor...

ouvindo Mozart, piano concerto, por Valentina Lisitsa

Mafra, 19 de Agosto de 2014
5h16m
.........
ainda escuro...não sei o que vai dar
...................

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 17 de agosto de 2014

fato completo

 fato completo


com a linha do meu pensamento,
fiz um grosso novelo,
enrolado às cores.

lancei o tear,
horas a fio.
saíu fazenda tão fina
que deu
para os fatos da casa
e ainda sobrou para oferecer
aos amigos do face,
a seu gosto e medida
e pronto a vestir.

O resto vai de encomenda
para os quatro cantos do mundo.
Basta pedir.

cada um seu feitio.

aqui, um terno,
a preceito.
camisa e gravata.

além, uma túnica,
larga e comprida,
voamdo à solta.

acolá um turbante,
tapando do sol
e da areia escaldante.

Ali, um sari,
de todas as cores,
colado ao corpo,
voando ao vento.

Das sobras e trapos,
teci uma manta,
a estendo no chão
reúno os amigos,
e com vinho e pão
e mais qualquer coisa,
passamos horas alegres,
cantando e sorrindo,
tocamos viola,
há sempre um fadista,
e jogamos às cartas,
madrugadas sem fim...

Mafra, 18 de Agosto de 2014
6h28m
........
já não está negro o céu
.........
Joaquim Luís Mendes Gomes




pisadas na areia...

pisadas na praia


abeirei-me do mar.
para molhar os meus pés.
as ondas suaves
chegavam em bando.
refrescavam-me as pernas
e meu corpo ardendo.

num lume tão brando
enchiam-me o peito,
me faziam sonhar.

minhas passadas molhadas
ficavam esculpidas
na tela da areia.
brilhando ao sol.

minha alma cantava
melopeias de amor.
uma chuva salgada,
caindo do céu.

havia gaivotas em bandos,
pairando contentes,
mirando mais fundo.
procurando alimento
para levar para o ninho.

voltei para casa.
peito tão cheio.
me estendi ao comprido
e fiquei a dormir...

Mafra, 17 de Agoto de 2014
19h19m
Joaquim Luís Mendes Gomes



sábado, 16 de agosto de 2014

transfiguração

Transfiguração...

rasguei o meu corpo
aos pedaços.
como se faz a um palhaço
ou a um boneco de trapos.

ateei-lhes o fogo
ficaram em cinzas.

atirei-as ao vento.
voaram no céu.
veio a chuva.
cairam no chão.
viraram sementes
de vinho e de pão.

foi o melhor que eu fiz.
sacio a fome e a sede.

palhaço ou boneco não sou...

ouvindo Mendelsshn

Mafra, 17 de Agosto de 2014

com o sol a subir

Joaquim Luís Mendes Gomes

tigre enjaulado

tigre na jaula...

espumando de raiva,
dum lado para o outro,
corro incessante,
feito maluco,
à procura da porta.

é tudo igual.
não vejo sinal
de fresta ou cadeado.
tudo cerrado.

olho para o céu.
por onde sair,
está carregado.
estou muito pesado.
um rasto comprido,
faltam-me asas.

só cavando uma cova.
bem funda,
em busca da veia.
o chão é de brita.

não vou desarmar.
o melhor é esperar.
algo aconteça.

um raio de sol.
derreta o arame.
um anjo do céu.
a chave apareça.

não é a primeira.

outras já foram.
piores do que esta.

o vento soprou.
a chama acendeu.
uma fornalha de fogo.
inflamou todo o mundo.

um lago de sonhos.
oceano profundo.
o sinto em mim.
é meu destino.
fera amansada.
carregado de fé.
é de lá que eu venho.
é para lá que eu vou.

ouvindo Brahms

Mafra, 17 de Agosto de 2014
7h9m

amanhecendo com promessas de sol

Joaquim Luís Mendes Gomes
GostoGosto ·  · Promover · 

ondas de vento...

ondas de vento...

adormeço com as ondas do vento,
queme entram docemente,
pelas minhas janelas dentro.

fazem-me sonhar
com outros tempos
e os ventos em tempestade.

os que derrubavam os ramos tenros
e as árvores que os seguravam.

davam lenha.
um regalo caro
que saía grátis.
era só apanhá-los
em grandes braçadas.
ó que regalo vê-los arder secos,
sem deitarem fumo.

e daquelas noitadas quentes,
à volta da lareira,
em família doce.

o avô ao canto,
dormitando alegre
com tanta paz,
vinda dos céus.

aquelas histórias
contadas com tanto ânimo.
dos antepassados
que se foram embora.

tanta saudade ali ardia.
tanta paz caía em cinza
sem faúlhas de maledicência.

brilhavam os olhos.
no rosto dos pais.
e nós pequenos,
fazíamos jogos
do esconde-esconde,
naquele espaço,
um mundo inteiro.

agora o vento
é vendaval.
tudo esfarrapa.
sem escolher a quem.

leva as telhas.
destroi em cacos
os trastes dos pobres.
poupando os ricos.

algo vai mal,
neste mundo sem rosto
onde reina o mal...

Mafra, 16 de Agosto de 2014
19h19m
 ao cair da tarde com sol

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

rampa de lançamento...

Rampa de lançamento...

Abeiro-me, erguido,
em bicos de pés,
de braços abertos,
cada manhã,
e lanço-me à vida,
com tormenta ou bonançosa.

Espero o vento
e deixo-me ir nas suas asas.
por esse mundo.
desço, subo correndo
pelas encostas, pelas fragas.
sobre os abismos.

regalo estes olhos
com as cores
que matizam um quadro,
imenso e rico,
onde peleja a humanidade.

traço rotas nos escaninhos do pensamento.
oceano inesgotável
que banha nossa alma.
onde abundam sonhos lindos
em cardume.

declamo alto os meus versos.
umas vezes ricos,
e muitas, muito pobres.
que me brotam em brasa,
cá de dentro,
com a mensagem
que na hora me ressoa.

Fico orando cheguem sempre
ao sítio certo
e, humilde e grato,
fico à espera de ouvir,
dum só que seja,
um brando eco...

Mafra, 16 de Agosto de 2014
6h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes

minhas alegias...

minhas alegrias...

São muitas.
Arremessei ao mar minhas tristezas.
Fiquei leve.
Pesavam em mim.
Pareciam chumbo.

andava de olhar soturno,
preso ao chão.

como um devedor
que não consegue pagar
as suas dívidas.

Fui ao meu passado.
corri todos os meus caminhos,
onde, uma vez ao menos,
eu fui feliz.

desde meus tempos de menino,
até às horas soltas da brincadeira,
no regresso da minha escola.

Quando ia aos ninhos
ou saltava o muro das quintas fidalgas,
onde a fruta era de graça
e era divina.

Aqueles banhos à pai adão,
nas enseadas largas
do nosso rio.

Das guerras à pedra,
onde vencia só
o mais ladino.

Das noras da rega,
que nós enchíamos
e nos levava em voo,
por umas horas.

E as escaladas às arvores mais altas,
tudo a pulso,
até ao cimo.

E das corridas a pé,
a toda a brida...
onde quem ganhava
era um herói.

E, por aí fora,
foram tantas minhas alegrias,
me sobram saudades
do tempo delas...

Mafra, 15 de Agosto de 2014
22h3m
Joaquim Luís Mendes Gomes

espaços vazios...

espaços vazios...

há espaços na nossa alma,
tão vazios,
nenhum oceano imenso
os consegue preencher.

os que o tempo
nos foi levando,
como vento
em tempestade.

só de novo,
os perfumes da primavera,
com flores
ou as cores de outono,
em chama,
e os sabores,
acri-doces
da sua fruta.

nem um mar de ondas,
das pradarias,
alegrarão
os nossos olhos.

e suas brisas breves
suavizarão
as nossas lágrimas.

só o regaço quente e terno
da nossa Mãe
seria capaz de os saciar.

agora, só a sua bênção
lá dos céus,
será o consolo,
adequado e puro
para que esta vida
nos continue a fazer sonhar...

Mafra, 15 de Agosto de 2014
14h00

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

é preciso parar...

É preciso parar...

Se caio em mim,
de olhos fechados
e olho para trás,

ó que aridez.
ó que vazio.
ó que deserto!...

Esquadrinho o mar e suas águas,
só encontro algas,
e ondas meigas que me banham os pés.

me lanço ao rio
e vêm os cardumes,
em correria,
para me abraçarem.

me elevo ao ar,
num balão de fogo.

fico pasmado
com a terra leve
que voa lá em baixo.

se caio em mim,
de olhos fechados,
e olho para trás,

ó que aridez.
ó que vazio.
ó que deserto!...

ouvindo sonata nº 2 "moonlight" ao piano de Beethoven por Valentina Lisitsa

amanhecendo, com um ténue e brando céu de nácar

Mafra, 15 de Agosto de 2014
6h47m
Joaquim Luís Mendes Gomes

até ao fim do mundo...

Até ao fim do mundo...

Irei até ao fim do mundo
para ver reinar
a felicidade total,
num paraíso tal,
como imagino.

Onde o sol nasça
e brilhe igual
para todas as casas.

Onde o mar dê peixe de sobra
a todas as bocas.

E a terra dê pão e vinho
que cheguem para todo o ano.

Onde não haja secas
nem ciclones mortais,
nem tsunamis.


Que cada um cresça
segundo os dotes
que lhe deu a Natureza.

Se for artista em qualquer arte,
sua obra fique brilhando
e alimente a alma sedenta
de quem quer ser
sem o poder.

Se for cantor,
sua voz ressoe canções
tão lindas...
até os anjos desçam
para as escutar.

Se for actor, de palco,
ou de cinema,
simples fotógrafo
ou retratista,
seus passos e seu olhar
sejam certos
e tão reais
como a vida o é
para quem a vive.

E minha alma volte
acesa em brasa
e ateie chamas
por todo o mundo
com o amor divino
que lá reina,
em estado puro.

ouvindo concerto para piano de Grieg
 a partir do youtube, por Alice Sara Ott


 Mafra, 14 d Agosto de 2014
21h57m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Ave Maria...

Ave Maria...

Ave Maria das naus e caravelas
das nuvens no céu
e das estrelas.
Dos mares e continentes
que enchem esta Terra.

Sois mais bela que as estrelas
e todo o firmamento
que é tão belo.

Deste vida terrena ao Criador..,
Como mulher és Rainha
no Reino eterno do Senhor.

ouvindo Ave Maria de Schubert, por Lang Lang

madrugada a abrir em flor

Mafra, 14 de Agosto de 2014
5h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes

grândola, vila morena...

Grândola, vila morena...
Acabamos de chegar do almoço em Grândola. Verdadeiramente, uma vila morena e terra de fraternidade. Aliás como todas as vilas alentejanas.
Têm todas o mesmo figurino. Suas casas baixinhas, de paredes brancas afitadas,ao longo das ruas esquadrinhadas, sempre com um renque de árvores de sombra e carregadas de flores, no tempo delas.
Ao centro, um lindo jardim, muito bem cuidado, cheio de bancos e estâncias, para o convívio .De novos e anciãos.
Uma casa de repouso a sério para os reformados, erecta pela solidariedade local, através duma associação de reformados, levada a sério.
E muitas casas de repasto. Primoroso no seu cozinhar alentejano.
Fomos ao do costume." A Coutada".
Íamos om a dúvida sobre se hoje estaria fechado. Mas não. Estava em pleno funcionamento.
Fomos os primeiros clientes a entrar na sala. O rapaz começou então a abrir as luzes nos candelabros.
Uma sala airosa. Fresca.
Veio a ementa. Meus olhos devem ter faiscado. Quando deram com o " cozido" na ementa.
Me lembrava do último há uns bons meses.
Chegou a travessa.
Não vos digo nada.
Começámos a debicá-lo. Religiosamente. fazendo-o render o mais possível.
Impossível encontrar-se outro melhor...Sério!
.
Em sabor. Qualidade das carnes, das hortaliças...Uma variedade rica. Um verdadeiro primor.
E o vinho tinto da casa. Em cantarinha!?......
Só indo lá...e ver...
O preço. Nem vos digo. Escandalizava-vos. Muito em conta.
Às quartas-feiras...de vez em quando, lá estaremos de novo.
Porque, só com poesia, a coisa não vai...

tringulo das bermudas^...

triângulo das bermudas...

nossa vida breve 
é um oceano extenso,
muito agitado,
ondas, ventos e ciclones.

Por vezes, um lago manso.
com muito verde à volta,
ondinhas doces,
e cisnes brancos.

Nosso barco, de remos frágeis,
uma casquinha de ovo,
se perde o leme,
fica à deriva,
ao sabor dos ventos,
das correntes fortes.

Sopram inclementes.
caem do céu.
emergem dos fundos.
se envolvem em nós,
como serpentes,
ficamos em pânico.
tudo perdido.
o fim do mundo.
em pouco tempo.

mas, é nesses instantes,
que a pequenês
nos fala claro
da dimensão
que temos.

nos indica
as amarras fortes.

que nosso horizonte
está muito para lá do mar...
vai da terra até ao Céu.

ouvindo gaita dos andes RTL novos talentos - Petruta Cecília Krupper

nasceu o dia com laivos de sol

Mafra, 13 de Agosto de 2014
6h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

inquietações...

inquietações...


Oiço água a cair do céu,
Como se fosse chuva.
E não é.

Olho o chão
E os campos da frente
Ao perto e ao longe.
Está tudo seco.
Com pó.
Como se fosse
Um deserto e verão.

Fico perplexo.
Duvido de mim.
Há avaria cá dentro,
Da grossa,
Por certo.

Carrego nas pernas
Dou pontapés.
A ver se está tudo igual.
E está.

Abro a porta.
Saio à rua.
Sensação tão estranha.
Nem quente nem fria.
Não corre uma aragem.
Não se ouve um ruído.
Um chilreio de ave.
As pedras paradas.
Não há uma folha que mexa.

Minha pele arrepia.
Falta-me o ar.
Meu tronco arfa e arqueia.
Contorce.

Queria ver gente.
Ver vida a pulsar.
Um desacato até.

Não sirvo para nada
E este mundo também.
Se me sinto sózinho.

Parece a guerra
Ou a morte que vem.
Oxalá eu esteja a sonhar...

Mafra, 12 de Agosto de 2014
6h50m
amanhecer luminoso com nuvens correndo do mar
Joaquim Luís Mendes Gomes

traves...

As traves...

Hirtas. Teimosas.
Fincam-se ao chão.
Se erguem no ar.
Desafiam o tempo
e seguram as casas.

Ora são mestras.
Ora empregadas.
Servem de pontes.
Sobem escadas.

São alavancas.
À força dos bois.
Puxam as noras.
Regam as terras.

No cimo das torres,
Aguentam os sinos.
Nas procissões,
Carregam andores.

Puxam os barcos,
Ferrando as águas,
À força dos remos.

Mastros ao vento,
Seguram as velas.
Caravelas no mar.
Correm o mundo.

Pedaços de troncos
Que a terra criou.
Cortaram-lhe os ramos.
Se mantêm de pé.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
7h12m
nasceu o dia
Joaquim Luís Mendes Gomes.

velas rasgadas...

velas rasgadas...


Trago dentro de mim
Um deserto de areia queimada.
Ardendo de raiva,
Moída na tineira do sol.

Me atiro as feras
E as mordo assanhado,
Com vontade mortal.

Ponho em mim todas as forças da terra
Que brotam cá dentro.

Dá-me vontade de quebrar tudo
E fugir para o egipto.


Onde nem as pirâmides morreram,
Regadas de sol.

Pareço um fantasma esquecido,
Parado no tempo.

Minhas velas rasgaram,
Caíram ao mar.

Nada mais espero deste mundo finito.
Inundado de mal.

Me atiro para as nuvens.
Me transportem ao céu...

ouvindo Rachmaninov, concerto nº 3

"setemomentos", Mafra, 11 de Agosto de 2014

10h6m
Joaquim Luis Mendes Gomes
 



domingo, 10 de agosto de 2014

as minhas mãos...

Minhas mãos..

São cegas as minhas mãos.
Só sabem fazer bonecos e gatafunhos.
Metidas consigo.
Só ligam aos dedos.

Desprezam as mensagens
Que vêm da alma.

Entram pelos olhos,
Como buracos negros,

Desprezam o sol e a luz
E todas as cores lindas
Da Natureza.

São surdas.Como duas pedras.
Não ouvem os passarinhos
Nem o marulhar lento
Do mar cansado.

Não choram
Nem vertem lágrimas.
São dois rochedos
Que enfurecem e metem medo.

Têm ciúmes dos pés
Que andam no chão,
Tão cordatos e submissos
À voz do dono.
E elas não.

São moedas de duas faces,
Uma trabalha, cria calos,
Uma meiga.
A outra é falsa.
Só dá para o beija-mão.

Mas gosto delas.
São as penas das minhas asas.

Levam-me à boca
A colher da sopa
E do caldo verde.

Cuidam de mim.
Seguram-me à escada
Não me deixam cair.

Lavam-me o corpo
E coçam as costas.
Aparam-me a barba.

Ficam ferozes,
Com ameaças.

São carinhosas,
Para com a atenção.
São muito gratas.

São companheiras.
Escrevem-me as cartas.
Ditam meus versos.
Tocam piano.
E jogam à bisca.

Põem em brasa
E levam-me aos lábios
O cachimbo da paz.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
6h12m
um amanhecer cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes




Minhas mãos..

São cegas as minhas mãos.
Só sabem fazer bonecos e gatafunhos.
Metidas consigo.
Só ligam aos dedos.

Desprezam as mensagens
Que vêm da alma.

Entram pelos olhos,
Como buracos negros,

Desprezam o sol e a luz
E todas as cores lindas
Da Natureza.

São surdas.Como duas pedras.
Não ouvem os passarinhos
Nem o marulhar lento
Do mar cansado.

Não choram
Nem vertem lágrimas.
São dois rochedos
Que enfurecem e metem medo.

Têm ciúmes dos pés
Que andam no chão,
Tão cordatos e submissos
À voz do dono.
E elas não.

São moedas de duas faces,
Uma trabalha, cria calos,
Uma meiga.
A outra é falsa.
Só dá para o beija-mão.

Mas gosto delas.
São as penas das minhas asas.

Levam-me à boca
A colher da sopa
E do caldo verde.

Cuidam de mim.
Seguram-me à escada
Não me deixam cair.

Lavam-me o corpo
E coçam as costas.
Aparam-me a barba.

Ficam ferozes,
Com ameaças.

São carinhosas,
Para com a atenção.
São muito gratas.

São companheiras.
Escrevem-me as cartas.
Ditam meus versos.
Tocam piano.
E jogam à bisca.

Põem em brasa
E levam-me aos lábios
O cachimbo da paz.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
6h12m
um amanhecer cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes