sábado, 23 de agosto de 2014

iano doirado

meu piano doirado

corri dum lado ao outro,
as teclas todas do meu piano.
procurando uma,
a mais infeliz.

todas me sorriam.
cada uma no seu próprio tom.
desci das mais agudas,
tenrinhos ramos
que enfeitam as copas,
duma árvore com porte.

fui saltitando,
um passarinho com medo
de cair ao chão.

me ajudavam atentas.
com ar contente.

fui descendo.
cada vez mais grosso.
cada vez mais forte.

passei o dó.
pulei ao si.
e fui ao lá.
que me levou ao sol.

peguei em mim,
abracei o mi.
havia tanto
que eu não via.

e vim ao ré.
estava chorando.
ao pé do dó...

perguntei porquê.
- por não ser preta
a sua cor!
era dourado...
sei lá porquê.

ouvindo Lang Lang no concerto piano nº 1 de Franz List

Mafra, 23 de Agosto de 2013
21h18m
Joaquim Luís Mendes Gomes


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

harmonias vitais

harmonias vitais


uma calçada de pedras,
tapetando o caminho,
alinhadas no chão,
conforme seu perfil
e cor,
formando desenhos,
castelos e rios,
regala os olhos,
suaviza as passadas
e fabrica desejos
na alma.

uma dama velada
que passa,
sombrinha aberta,
de seda,
vestes compridas,
tecidas com arte,
cobrindo um corpo,
com formas gentis,
seguindo o passeio,
à moda do século dezoito.

o ar da manhã
dum dia a nascer,
banhado de sol,
subindo no céu,
derramando a vida
que nos faz
correr e sonhar.

uma escola primária,
caiada de branco,
e sombras de árvores,
banhada de luz,
com recreios seguros,
que se abre certinha
e deixa entrar
os meninos da terra
é celeiro de pão,
de paz e progresso.

uma ermida com cruz,
erguida no monte,
exalando orações,
suplicando a bênção
para as gentes e
sementeiras nascentes,
vivendo felizes.

um filhinho que nasce
dum acto de amor,
realizando o sonho
duma vida feliz
e cheia de cor.

aquela árvore vizinha,
à beira da casa,
coberta de verde,
com pássaros cantando,
quado nos viu a nascer.

os abraços e risos,
dos rostos que passam,
à frente da porta,
a caminho da feira,
saudando vizinhos,
como se fossem irmãos...

que quadro de sonho
dum mundo tão lindo,
onde valia viver!..

ouvindo Chopin, o dia a nascer

Mafra, 23 de Agosto de 2014
6h18m
Joaquim Luís Mendes Gomes


alfabeto muical

alfabeto musical

soletro em mim,
todas as notas musicais.
e gasto todas as letras
que tem o alfabeto.

escrevo prosas
e escrevo versos.
sou um rio de notas breves,
a correrem soltas.

oiço acordes lindos
que vêm lá das estrelas.
solfejando hinos
de louvor
ao mesmo Deus
e Criador.

me chegam trovas
dum mundo ignoto
que eu não conhecia,
até ao dia em que a porta se abriu
e eu entrei.

fez-se a luz mo meu pensamento,
e comecei a ver claro
na escuridão.
como nunca eu só
poderia ver.

subi acima.
enxerguei montanhas
e vi colinas.
onde batia o sol
o dia inteiro.

e vi o mar, ao longe,
a adormecer...

as ondas vindo de mansinho
cantando notas
em tom tão fino.

me lancei ao mar perdido
e fui para o alto,
deixando a terra,
onde eu nunca mais
queria morrer...

ouvindo o concerto nº 4 de Beethoven, ao piano, por Hélène Grimaud

Mafra, caindo a noite,
22 de Agosto e 2014
21h05m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

cruz alta

cruz alta

cruz alta, erguida,
no cimo dos montes.
olhando em redor,
no silêncio do tempo.

Duas linhas apenas.
uma sobe infinita.
outra abraça sem fim.
ambas derramam a paz.

a vida terrena é finita.
só é infinita no céu.

Mafra, 22 de Agosto de 2014
5h 15m
Joaquim Luís Mendes Gomes

oratório

oratório

há um espaço pequeno,
no cantinho da sala,
ao pé da lareira.

um pequeno altar.
uma campânula redonda, em vidro.
uma imagem escultura,
do Santo Jesus dos milagres.

à volta, os retratos falantes
da minha gente passada.
Uma vela acesa.
queimando saudade
e exalando uma prece constante,
pedindo a bênção
para a casa.


ouvindo "siêncio" de Beethoven ao piano

7momentos, Mafra, 21 de Agosto de 2014
10h25m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

farmácia

armácia

cheia de estantes,
caixinhas e frascos,
uma serpente enroscada,
de cabeça esguia e felina.
em volta dum frasco,
no cimo da porta.

uma cruz cintilante,
sempre viva e acesa,
de portas abertas,
aparece nas esquinas
das ruas
em todas as terras.

senhora dos milagres.
semeando a esperança
na morte dos males
que assolam a vida.

mundo das químicas,
que as plantas nos guardam
e dão, em segredo.

Quem delas não gosta?...

Mafra, 21 de Agosto de 2014
7h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 19 de agosto de 2014

traços vermelhos

traços vermelhos

com traços vermelhos
se desenham perfis,
no firmamento estrelado
e o nome das gentes da terra
que sangram inocentes
na hora que passa.

nunca se viu tanto progresso
e tanta desgraça.
sobra riqueza no bolso de poucos
e falta o pão na mesa de tantos.

a violência mortal
e a maldade feroz
ensanguenta os fracos
pela mão dos mais ricos.
vorazes avaros,
sedentos e cegos.

tanto se estuda,
investiga e se lê.
a terra já não chega,
se avança para o espaço.

a ambição do poder
impera no mundo
não olha a meios.
desafia a lei natural.

quando será que se pára?

só o juizo final
do Senhor do poder!...

noite cerrada. não dá para ver

hotel Ibis, em Santa Maria da Feira
20 de Agosto de 2014
5h24m
Joaquim Luís Mendes Gomes