quarta-feira, 27 de agosto de 2014

a muralha...

a muralha...

um campo aberto,
exposto ao vento.

um monte ao alto,
cercado de céu.

um mar infinito,
caiado de cal.

uma alma imortal,
de asas quebradas.

um castelo de sonho,
de muralhas rompidas.

ser e não ter,
viver a morrer,
amar sem viver
é sofrer duas vezes
uma vida perdida...

ouvindoRachmaninoff, piano concerto nº 2, por Yuja Wang
5ªfeira  clarear
Joauim Luís Mendes Gomes



terça-feira, 26 de agosto de 2014

pequenos nadas...

pequenos nadas...

a vida é uma teia imensa
de pequenos nadas.
como aranhas a vamos tecendo.
uma volta em cada dia.

os primeiros,
arquinhos breves.
insignificantes,
muito breves,
mas  tão importantes.

num sítio certo,
ao pé da porta.
sempre presentes,
os pais à vista.

passadinhas curtas.
tudo mirando
de como faziam.
como falavam.
como sorriam.
como sonhavam.
na faina da teia
tão bem teciam.

suas alegrias.
suas tristezas.
seus bons exemplos.
tudo gravado,
me serviu para a vida.

esta manta longa
que ainda estou tecendo,
com as meadas de fio,
linda roca d´oiro,
que eu fui fiando.
da minha velha arca,
onde guardei o linho...

Mafra, 27 de Agoto de 2014
6h34m

está escuro o dia

Joaquim Luís Mendes Gomes

floresta dos desencontros...

floresta dos desencontros...

perdi-me na floresta dos desencontros.
foram tantos os desenganos
que a vida me ofertou.

tantas sendas e tantos escolhos.
tantos ventos me sopraram.
tanta falta de orientação.
informação errada.
tanto travão supérfluo.
falsos ditames
de gente enganada.

morreram de olhos vendados,
sem dar conta
da carga inútil
que carregaram sobre seus ombros.
para nada foi...

É outra e bem diferente
a Lei de Deus...

Mafra, 26 de Agosto de 2014
17h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

os estreitos...

os estreitos...

depois duma subida sinuosa,
numa via extraída à escarpa,
com o medonho fundo do abismo
sempre em ameaça,

é um alívio e um fulgor
passar um estreito,
onde, parece,
só caber um à vez

e lançar os olhos
na imensidão dum vale,
florido e remansoso,
onde reina a calma
e o nascer do sol.

tudo ficou para trás.
esquecido.
valeu a pena o que se sofreu.

a vida é assim.
tem escarpas e tem ravinas.
bem abundantes e inesperados
são os abismos.

por isso, temos braços,
fortes e abertos
e temos os pés,
a rasar o chão,
um sózinho,
por sua vez
e dois olhos bem abertos
a mostrarem sempre
o melhor carreiro.

aquele que leva seguro
até ao cimo,
onde um estreito,
se abrirá, de par em par,
e nos desvenda
a esperança do futuro
e um nascer de sol em cada dia.

ouvindo Alice Sara Ott ao piano, tocando Grieg

Mafra, 26 de Agsto de 2014
6h1m

o dia está a nascer lento e cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 24 de agosto de 2014

a sorte do dromedário...

sorte do dromedário...

baixou-se ao chão.
alijou a carga bruta e dono.
sacudiu as bossas e as orelhas.

e partiu, como passarão,
esvoaçando livre,
sobre as areias do deserto.

maldisse as horas de escravidão.
calcorreando percursos longos,
não tinham fim.

carregando sal,
em blocos de pedra.
e qual a paga?
um balde de água
e um punhado de erva.
em cada chegada.

agora, era seu o mundo,
a toda a hora.
lhe bastava a liberdade.
não tinha norte.
sua rota leve era o destino.

suas patas eram as asas
que o levariam a todo o lado.

cabeça erguida,
olhando ao longe.
sem o chicote bravo
a bater no lombo.

suas noites longas
seriam um sossego,
a contar estrelas.
lembrando a infância,
quando era menino.

dormiria a sesta,
onde houvesse sombra.
escolheria o oásis
para suas férias.

quão bem risonho
seria o futuro.

passaram dias.
passaram meses.
e uma névoa de sombra,
num crecendo lento,
lhe toldou o céu.

era a tristeza de se ver sózinho,
e não partilhar a sorte
da liberdade...

Mafra, 25 de Agosto de 2014
6h47m

o dia está a clarear...cinzento, mas irá desabrochar em sol


Joaquim Luís Mendes Gomes






sábado, 23 de agosto de 2014

é preciso experimentar...

é preciso experimentar...

descalços os pés no chão.
sentir as pedras picando.
esmurrar os joelhos
e cair de vez em quando.

lavar e voltar a caminhar.
nunca esquecer cada lição
que a vida dá.
manter a fé e ter esperança
no amanhã.

contar só com as forças próprias.
e as de quem nos mantem de pé.
dar a mão a quem dela precise,
aqui ao lado.

pedir desculpa e perdoar
quem foi atingido
ou ofendeu contrito.
sem guardar rancor.

não há ninguém só mau...
e o que for lá terá suas razões.
só Deus as sabe.

nunca falar de cor.
a memória é a faculdade
do esquecimento.

o rio do tempo
tudo lava com suas águas.
enquanto a terra girar connosco,
no vai e vem de cada dia.

Mafra, 24 de Agosto de 2014
6h50m

o dia está clareando envolto numa bruma de cinza

Joaquim Luís Mendes Gomes







iano doirado

meu piano doirado

corri dum lado ao outro,
as teclas todas do meu piano.
procurando uma,
a mais infeliz.

todas me sorriam.
cada uma no seu próprio tom.
desci das mais agudas,
tenrinhos ramos
que enfeitam as copas,
duma árvore com porte.

fui saltitando,
um passarinho com medo
de cair ao chão.

me ajudavam atentas.
com ar contente.

fui descendo.
cada vez mais grosso.
cada vez mais forte.

passei o dó.
pulei ao si.
e fui ao lá.
que me levou ao sol.

peguei em mim,
abracei o mi.
havia tanto
que eu não via.

e vim ao ré.
estava chorando.
ao pé do dó...

perguntei porquê.
- por não ser preta
a sua cor!
era dourado...
sei lá porquê.

ouvindo Lang Lang no concerto piano nº 1 de Franz List

Mafra, 23 de Agosto de 2013
21h18m
Joaquim Luís Mendes Gomes