sábado, 30 de agosto de 2014

aranguês....

aranguês...

nome de terra mágica,
tão bem pintado
por uma viola a arder
nos dedos divinos
dum filho de Lúcia,
uma portuguesa...

tem a cor do fado
ao fundo,
a alma profunda
que lhe dá luz
e o ser tristonho
de quem sofre de amor.

a leveza pálida
das terras do sul
onde os sobreiros vivem,
à borda do mar
e dum rio azul.

algarvia a Mãe,
Lúcia de nome,
um génio dela nasceu
e se fez aranguês.

glória de espanha
encantando o mundo,
abraçado às cordas
dum violão doirado
que ele dedilha
como um pintor...

ouvindo concerto aranguês
Por Paco de Lúcia

ainda é escura a noite

Mafra, 31 de Agosto de 2014
6h01m
Joaquim Luís Mendes Gomes

a solta na praia...

à solta na praia...

desamarrei as minhas mãos
e parti livre,
em busca do tempo
que perdi.

fui ao mar.
ver as ondas que chegavam.
e as saudades que ali deixei.

minhas mágoas eram tantas,
esbordou o mar,
com as lágrimas doces
que eu verti.

suspirei bem fundo.
enchi meu peito.
vi a madrugada
envolta em bruma
das labaredas todas
que eu soltei.

fiquei dormindo
sobre a areia.
de manhazinha,
ao sol nascendo,
havia tantas gaivotas
batendo as asas
como que a me chamarem.
um dia mais estava nascendo.
seriam horas de eu voltar...

seguindo adágio de albinoni...

Mafra, 30 e Agosto de 2014
2h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes

no dia e que um filho faz anos...

no dia em que um filho faz anos...

dar um filho ao mundo
é o maior gosto da vida
que se pode aspirar.

e se, com a nossa bênção,
ele cresce feliz
e se faz homem de bem,

ó que poder sem preço,
quase divino,
Deus pôs na nossa mão!...

ouvindo Sarah Brightman , em
"Ó mio bambino caro"

Mafra, 30 de Agosto de 2014
16h34m
Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

sedução das colinas...

sedução das colinas...

donde me vem esta sedução pelas colinas?...

adoro as fragas. 

de muito íngremes.
com tantas refegas negras,
me cansam. me estonteiam.
apetece fugir delas.
me esmagam na pequenês de mim.

prefiro os vales.
onde, suaves,
deslizam os rios
e a vida se espraia,
verde e mansa.

mas, com o tempo, também cansam...

subo a encosta. extensa,
em ondas de terra.
como se fosse um mar.

não cortam os olhos,
não têm gumes.

são doces, banhadas de brisa.
nasce-lhe o feno em manta imensa

suavemente, me abrem seus braços,
me põe dançando.

as valsas do vento...
como se fosse em gelo,
com tanta graça,
com tanto brio.
fazem chorar.

me sinto ao colo quente
de minha Mãe...

oiço os silvos,
as melopeias.
o bater das asas
e o frémito em chama
das borboletas...

pintas de cor.
dum rubro em sangue,
salpicam o verde,
num mar sem fim.
meus olhos cintilam a arder,
com tanta luz...

minha alma sobe no ar.
um balão feliz...

ouvindo música suave variada

um sábado quase a nascer, ainda sem cor

Mafra, 30 de Agosto de 2014
6h17m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

sou assim...

sou assim...

tal e qual.
forte e muitas dobras de fraquezas.
um claro escuro,
a transbordar
de muita incerteza.

o meu caminho segue.
e nele eu vou,
tal e qual eu vim ao mundo.
muito de mim
não fui eu que fiz.

sou um fruto.
dum pomar com dono.
a semente.
não fui eu quem a botei.

tenho caule.
tenho copa.
brilho ao sol
e lá nos pés,
a minha raiz...

ouvindo Rachmaninoff, nº 2

Mafra, 29 de Agosto de 2014
7h28m
Joaquim Luís Mendes Gomes





procissão da vertigem...

a procissão da vertigem...

começou à hora,
a passar duma para a outra margem.

tanto andor, alto, colorido.
tanta gente de opa,
de fato inteiro
e de gravata.

tanta irmandade,
cada uma sua bandeira.

tanto círio e vela acesa.
cada um e uma
a cada ídolo.

há incenso e pétalas no chão.
e muitas pinturas rupestres
de cada lado das paredes.

sobem foguetes.
com fragor.
só fumaça e cheiro a pólvora seca,
sem nenhum estrondo.

há pálios e coros lúgubres,
entoando hinos descoloridos.
até palhaços ali vão aos saltos,
trepando loucos
à procura das cadeiras.

e a fechar,
aqui vou eu,
e, garbosa e impante,
vai uma banda inteira
de pandeiretas...

ouvindo Mahler

amanhece a 6.ª feira, com ar cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

a muralha...

a muralha...

um campo aberto,
exposto ao vento.

um monte ao alto,
cercado de céu.

um mar infinito,
caiado de cal.

uma alma imortal,
de asas quebradas.

um castelo de sonho,
de muralhas rompidas.

ser e não ter,
viver a morrer,
amar sem viver
é sofrer duas vezes
uma vida perdida...

ouvindoRachmaninoff, piano concerto nº 2, por Yuja Wang
5ªfeira  clarear
Joauim Luís Mendes Gomes