sexta-feira, 12 de setembro de 2014

tudo a postos.

tudo a postos.

meu barco arfante,
de velas de pano,
está pronto a sair 
da barra do mar.

engalanado,
bailando,
vai partir sem destino.
à volta do mundo.

o sonho encantado,
de quando era menino,
sentado na praia,
olhando ao longe,
donde vinham as ondas
que fugiam do vento.

que é que haveria,
para lá do além,
da linha sem fim,
entre o mar e o céu.

a hora chegou.
na tarde da vida,
onde vivi marinheiro,
como um nauta,
sem bússola,
seguindo estrelas
que se estão a apagar...

minha chama de cá apagou.
quero acendê-la
noutra parte do mundo,
mas à beira do mar.

ouvindo Franz Liszt- Liebestraum

um dia a nascer

Mafra, 12 d Setembro de 2014
6h31m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

correndo à chuva....

sózinha. 
açafate à cabeça. 
descalça na estrada,

vai pressurosa.
a caminho de casa
a fazer o almoço
para a pequenada
regalada da vida.
sente-se amada.

carregada de uvas,
vermelhas de vinho.
que regalo comer.

todos dançando,
`à volta da mesa,
toalha de linho
corada do sol.

ó maravilha! é a vida a sorrir.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

renascer...

o renascer...


minha janela branca devassada
dá para a escuridão da mata.
só o negrume se vislumbra
e o nada para lá daquele muro de pedra.

mas é de lá que vai nascer o sol
com a doce alegria de mais um dia.

verei o verde em chama do manta de copas
e o amarelado seco das duas encostas,
por onde cirando em paz,
os meus cavalos,
tão bons vizinhos.

verei moinhos argutos,
com as três pás brancas,
girando ao vento.

ouvirei o vento que chegou do mar.
vindo dos longes,
mais longe,
onde não havia gente.

verei a luz a chover em bátegas,
pintando às cores,
todas as aves.

e o amigo vizinho de cabelos brancos,
passeando o canito
e contando voltas
para bem das pernas.

tudo eu espero,
quando o sol nascer...

ouvindo Adagio for Strings de Samuel Barber, a partir do youtube

escuro de breu...

Mafra, 10 de Setembro de 2014
6h0m
Joaquim Luís Mendes Gomes

resgate...

o teu resgate...

vou vender tudo quanto tenho
para pagar o teu resgate.

aquele cordão de oiro maciço
que me deu o meu padrinho
pelo natal.

e as terras todas que herdei.
ao pé do rio.
onde a toda a hora
me vou banhar.

e aquela vinha de uvas doiradas
que enchem o meu lagar.

tudo eu vendo.

vou juntar o dinheiro.
que for preciso.

nem que seja uma fortuna.

vou de barco ou de avião,
ao fim do mundo
a buscar a tua mão.

para viver o resto da vida
contigo ao lado.

até à hora do sol pôr.

Mafra, 9 de Setembro de 2014
15h41m
Joaquim Luís Mendes Gomes
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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

alfaiate sou eu...

alfaiate sou eu...

sou semente madura.
nascida da terra.
agarro-me a ela,
com unhas e dentes.

me enrosco lagarta,
com todas as patas
e loro e loro..
perdido, feito mineiro.

busco do minério mais puro,
que vive escondido,
para minhas mensagens.
busco as raizes
que medrem cá dentro.

quero dar fruto,
exposto ao sol.
busco as cores
que só no seu ventre
brilham no escuro
como estrelas do céu.

agarro-me a elas
com todas as forças
e teço fazendas
com que me visto.
eseciarias sem preço
para dar e vender,
na praça do mundo,
ao preço da chuva,
a quem as quiser.

trabalho à medida.
alfaiataria de mestre.
desenho os fatos
a giz e tesoura.
de olhos fechados.
conforme a hora
em que estiver a sonhar...

não aceito encomendas.
o traço dou eu...

Mafra, 8 de Setembro de 2014
19h18m
Joaquim Luís Mendes Gomes





domingo, 7 de setembro de 2014

armado...invencível...

armado invencível...


armei-me até aos dentes.
com todas as armas
que arranjei.
umas, minhas.
outras, emprestadas.

lancei-me ao largo.
livre.
disposto a tudo.
até a matar
para não ser morto.

me desferiram um primeiro ataque.
defendi-me bem.
fiquei ufano.
convenci-me que era invencível.
como aquela armada
que foi ao fundo

nao foi preciso muito.
ao virar da esquina
um ligeiro ataque
traiçoeiro,
deitou-me ao chão
e desarmado.

vi-me perdido.
pensei no fim
ou na desgraça.
porque não a mim?...

minha fé, porém,
se acendeu em chama.
e acreditei ser mais um pesadelo.
e haveria de despertar.

clamei aos quatro ventos
como quem ora.

tive a esperança
na mão de Alguém...
me viesse acudir,
com força.

e na derradeira hora,
donde menos esperava,
a Sorte veio em força.
escorraçou o maligno...

me pôs de pé.
me pôs à porta
a chave e,
deslumbrado, eu entrei...


ouvindo the best of Chopin, a partir do youtube

Mafra, 8 de Setembro de 2014
4h53m
Joaquim Luís Mendes Gomes




tarde de domingo...

tarde de Domingo...


está azul o céu.
como há muito não.

há cavalos tranquilos a debicar o chão,
para mim,
de olhos baços,
só me restam
as nuvens a bailar festivas...

mais as copas verdes
duma mata em flor.

oiço acordes
duma música lenta
minha alma aspira.
e canta sonora.

louvores sem fim.
de louca a arder.

baladas tristes,
me chegam do fundo
dum mar profundo.
soam a eterno
dum amanhecer.

voo no ar
como se fora ave.
rumo ao infinito
do entardecer.

meu barco alado
de asas abertas.
parece uma gazela triste
a que abri a porta.

vou esbaforido.
se ninguém me alacançar,
darei a volta ao mundo.
e ficarei sonhando.

perdi tantos dias
neste porto morto.

só hoje me chegou o vento.

ouvindo Brahms piano concerto nº 2 por Baremboim
Mafra, 7 de Setembro de 2014
17h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes