terça-feira, 17 de setembro de 2013

fosse eu condor...

Fosse eu condor...

Passaria a vida
Voando alto,
Longe desta terra azul
Que se fez imunda,
De tanto mal.

Tanta loucura à solta,
De quem nela manda,
Culpa do homem.

Simples viageiro,

Esqueceu quem é.
Assentou arraiais,
Como se fosse aqui
Sua meta final.

Com a lei do mais forte,
Que nasceu igual,
Num império do mal
Se volveu o mundo.

Fez-se pirata,
Salteador de gentes,
Ergueu castelos,
Fez-se terror.
Fera imortal,
Imperador sem lei.
Vive do sangue,
Impune,
Do seu irmão...

Bradou aos céus,
Como se fosse o sol.
Renegou a Deus,
Autor do mundo...

Em vez de asas,
Só tenho algemas,
Mas sei voar...
Como um condor.

Ouvindo Tschaikowski, concerto nº 1
Mafra, 18 de Setembro de 2013
Joaquim Luís Mendes Gomes

















melodia da poesia...



Melodia da poesia...

Está na cor.
Está na luz.
Está no som.
Está no vento.
Está no mar
E no jardim,
Cheio de cores.
Ela nos banha,
Nos embriaga
E nos aquece.
Nos consola,
Nos encanta,
Abre portas.
Um mar imenso.
Um céu estrelado.
Na lua cheia.
Na praia acesa.
Rio fogoso.
Mar encrespado.

No rosto que chora.
No recreio da escola.
Dança do ventre.

Sino que canta,
Sino que dobra.

Na saudade que morre
D’agora e sempre.

Quem a não sente,
Está mesmo morto.

Mafra, 17 de Setembro de 2013
13h40m
Joaquim Luís Mendes Gomes

suaves caravelas...



Suaves caravelas...

Ao vento desfraldadas,
Rompem as ondas, como arados.
Cavam sulcos.
Como caminhos.
Rumo certo e com destino.

Absortas, como estrelas,
Correm mundo,
Desarmadas,
Pontinhos brancos,
É bom vê-las,
Vistas da praia,
Vão suaves,
Tão serenas
Como a paz.
Quem me dera
Ir com elas!...

Ouvindo Hélène Grimaud

Mafra, 17 de Setembro de 2013
7h52m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

aguadilha negra...

Aguadilha negra...

Não sei donde vem tanta aguadilha negra
Deste meu cachimbo a arder...
Mal acendo,
Põe-se a verter
Como fonte suja...
Entre fumaradas de sal.

Apetece-me lançá-lo ao mar.
Mas, depois, vem o prazer
De fumegar
E alcançar o limbo
Nesta terra em chama.

Tudo lhe perdoo
Até este ingrato correr
De lava, num vulcão de chama
Sem ferir a terra
Que se cala em cinza,
Sem fazer doer...

Mafra, 16 de Setembro de 2013
20h25m
Joaquim Luís Mendes Gomes



folhas secas...


Folhas secas...

Horas secas.
Folhas mortas
Caídas no chão.

Só o vento lhes deu as asas
Mas não a vida
De serem verdes,
Como folhas
Sempre a bailar.

Não foi do sol,
Não foi  do vento.

Secou-lhes a seiva
Que fluía dentro.

Até a terra-mãe
Lha negou também.

Nelas escrevo os meus poemas
Nesta maré-viva
Com as penas vivas
Das horas cinzas
Que a vida me dá...

Mafra, 16 de Setembro de 2013
16h49m
Joaquim Luís Mendes Gomes










voltar ao lar...

Voltar ao lar...

É doce atravessar o rio e subir a ladeira,
Entre silvados carregadinhos de amora negras...
Que doçura!...debicá-las...
Ver o nosso fiel
Correr para nós,
Dando ao rabo, vertiginoso,
Ladrando as saudades de dois meses...
Eram tantas como as minhas,

Abrir o cancelo, inclinado,
Sempre o mesmo,
Pronto a abrir,

Ver as portas cerradas que se abrem
E um rosto a sorrir,
Banhado em lágrimas...
E aqueles abraços,
Em brasa a arder,
Da gente da casa...

Valeu a pena a caminhada.
Parecia não ter mais fim.
É sempre assim...

Ouvindo Hélène Grimaud, em adágio de Mozar

Mafra, 16 de Setembro de 2013
8h10m
Joaquim Luís Mendes Gomes



sábado, 14 de setembro de 2013

o teu abraço...

Com um abraço...

A vida , sem amor,
Humano ou divino,
É negra, pesada e dura.
Não faz sentido...
Basta um abraço
Bem apertado
Dum bom amigo,
Na hora cega,
- melhor que tudo -
Para se voltar a ver a luz
E continuar a andar,
Até dar a volta ao mundo...

Girona, 15 de Setembro de 2013
8h6m
Joaquim Luís Mendes Gomes