sábado, 5 de outubro de 2013

meu rio e eu...

Meu rio e eu...

Bem no fundo de mim
Corre um rio caudaloso.
Nele me banho,
Ele me baha
E com ele vivo
Em cada hora,
Faz parte de mim,
E não dou conta.

Vem não sei donde
Não lhe conheço o começo.

Nele se banharam meus pais
E os que os antecederam,
Num caudal sem fim.
Nascidos da mesma bica.
A mesma água.
O mesmo sangue.
Que em mim corre.

Atravessou os tempos.
Tomando as cores,
Ora negras,
Ora barrentas,
Das suas margens
E do leito que foi banhando.

Carrega em si muito de bom
E também do mal
Que não sedimentou
Nem ficou para trás.

Umas vezes, favorável...
Outras não.
Se revolve dentro,

Como o vento faz.
Tudo eu filtro,   
E enriqueço,
Como sou capaz... 

É este rio mescla,
De bom e mau,
Que, um dia,
Eu vou deixar...
Ele e eu.
Uma unidade.

 Oh,  mistério!...

Como nós,
Nunca houve
Nem haverá igual.
Meu rio e eu...

Mafra, 4 de Outubro de 2013
21h34m
Joaquim Luís Mendes Gomes




sexta-feira, 4 de outubro de 2013

fitando o céu...

Fitando o céu...

Passam balões coloridos,
Ao alto,
Frente à minha janela.
Fico a vê-los.
Triste.

Ali vão seguindo
Tão sorrateiros.
Mais calmos
Que esta doce brisa 
Que me vem do mar.

Gostaria de ir num deles.

Olhar em redor,
Com o infinito
Ao longe.

Por debaixo, dormindo,
O mar e a terra,
Em terno enlace,
Num sono profundo.

 Não lhes ouviria o choro
De tanta lágrima e dor,
Que, só por mal
E tortura vil,
Enchem os vales
Deste mundo infeliz,
Onde vegetam vivos,
E quereriam voar.

Mafra, 4 de Outubro de 2013
16h48m
Joaquim Luís Mendes Gomes


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

oração ao sol...

Oração ao sol...

Caia abundante sobre a Terra
Uma chuva imensa de pétalas,
Perfumadas,
Com todas as cores
Do amor e solidariedade.

Escorra fértil sobre os telhados,
Dos mais ricos aos mais pobres,
Ilumine os olhos
E embriague os corações
Que eles abrigam.

Extermine e seque todas as ervas do mal
Sobre os caminhos
Que só servem para enlaçar,
Sem discriminação,
Os povos das nossas aldeias,
Desde os cumes altos,
Até aos vales.

Se forme um rio caudaloso e largo,
Com açudes verdejantes,
Onde, em paz,
Se confraternize alegre,
Toda a gente,
Com o mesmo amor ardente
Pela sorte de viver, na terra,
Como se fosse um paraíso...

Ouvindo André Rieu...

Mafra, 4 de Outubro de 2013
7h37m

Joaquim Luís Mendes Gomes

da minha janela...

Tapada de Mafra

Pálidos raios de sol cadente
 Sobre esta mata virgem,
Onde, à solta,
Deambulam e mastigam palha seca
Tantos cavalos belos, de fino corte.

Corro o mundo.
Vou e volto.
Em estranho frenesi.
Em correria louca.
Em correria louca.
Procurando o quê?...

De vez em quando,
Com saudades,
Me lembro deles.

Tanta coisa estranha
Vivo e me passa à frente.
Tanta sorte de poder voltar!...

Abro a janela
E eles ali estão...
Iguais. Muito serenos.
Mansos, em profunda calma.
Saboreando viver
E desprezar a morte.

Que linda lição me dão!...

Ouvindo Hélene Grimaud em Moonlight de Beethoven
Mafra, 3 de Outubro de 2013
18h26m

Joaquim Luís Mendes Gomes

loucura dos loucos...

Loucura dos loucos...

Admiro a loucura dos loucos
que batem a porta
e fogem loucos pela estrada fora.

Não se conformam com a falsa bondade
Dos que se dizem normais,
Uns hipócritas,
Uns vilões
Caminham rectos por essas estradas
atropelam todos,
sem olhar a quem...

Vestem de gala,
são uns senhores,
tudo devoram.
E nada dão.

Comem do bom.
Sem ganhar vintém.

São só cobradores
Do suor d’alguém.
Riem palhaços.
Queimam a vida,
Fazem de loucos
E são os normais...

Ouvindo Holliday

Mafra, 3 de Outubro de 2013
20h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes  

mundo de paz...

Mundo de Paz...

Como folha de outono,
amarela e doirada,
raiada do sol,
batida do vento,
vou mundo fora,
Em busca da paz. 
Atravesso as nuvens. 
Pairo no limbo,
bebendo da luz,
caída dos céus. 
Minha alma adormece,
sonhando que o mal da terra,
morreu e foi sepultado,
nos fundos mais fundos,
dos longes do mar.

Só volto a voltar
quando o bem dominar
num mundo de paz.


Ouvindo sonata “ Claire de Lune” de Beethoven

Café “ Castelão” em Mafra, 3 de Outubro de 2013
10h55m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

nunca chove ao luar...

Porque nunca chove ao luar?...

Tanta vez, faz sol radioso e chove,
Engalanando a terra
De refulgentes arco-íris.
Enfeitando-a como a uma noiva
Que, em êxtase doce,
Vai subir
As escadas do altar.

É assim o inesgotável amor do astro-rei
Pela terra virgem,
Quando a banha com a chuva!...

Que haveria de ofertar a terra à lua
Quando se cobre
Daquele manto, albo e leve,
Que a enleva em sonho
E a faz cantar na madrugada...

Senão, serenatas
E tanta balada,
Perfumadas de amor plangente,
Na candura do silêncio
Que chove em pétalas,
No luar?...

Ouvindo “ Serenata de Schubert” por Nana Muskory

Mafra, 3 de Outubro de 2013
7h33m
Joaquim Luís Mendes Gomes