segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Em São Pedro de Muel...há muitos anos
Éramos uns botões em flor,
Quer tu quer eu.
Eu tinha chegado da Guiné,
Mal te conheci em pé
Ao pé de mim.
Era verão.
Teus foram para São Pedro Muel,
Naquelas férias de Agosto.
Para nos encontrarmos,
E conhecermos melhor.
Finalmente,
De manhã à noite,
Sem rodeios
Ou os constrangimentos
Que a distância faz.
Tu, no hotel São Pedro.
Eu ,numa pensão qualquer.
Pelo amanhecer,
Eu estava à porta.
ía-te buscar
E seguíamos os dois
Até ao mar.
Com nevoeiro ou não….
Nosso calor interno
Tudo desfazia em pó.
Uma barraca em pano,
De listas azuis e brancas
Como cabana ,
E o silêncio em festa,
Fugindo do mar…
Fazia o luar.
Ali nos vimos, afinal.
Como éramos belos!...
Corpos em flor,
A desabrochar em força.
Tínhamos prisões,
Cá dentro.
Muitas.
Boas e más.
De muitas teias,
Fumarolas falsas,
Construções de areia,
Que nos tolhiam,
Da cabeça aos pés...
- Era assim!...
Tudo mudou!...
P’ra bem ou mal?--
Fogo de Agosto.
Nem o inverno apaga!...
Berlim, 4 de Fevereiro de 2013
21h43m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Êxtase de verão

 

Amanheceu.

Que lindo dia…

E mais bela noite

De Verão!

 

Enfim chegara

Aquele encontro

Ao pé do mar.

Eles os dois,

Enamorados

E ninguém mais.

 

Descia mansa  a noite.

As gaivotas saciadas

Tinham poisado em bando

Sobre as amuras negras do castelo.

 

Nem uma só andorinha,

Alta ou baixa,

Sobre a praia,

A esvoaçar.

 

Faiscavam d’ ouro

E tropicais,

As vitrines iluminadas,

Dos restaurantes,

Quase à pinha,

Rente aos passeios.

 

Já não havia gente a passear,

De braço dado,

Ou em família,

Sobre o passeio alegre,

Fronteiro ao mar.

 

As traineiras,

Em fileiras,

Engalanas de bandeiras,

Entravam ufanas,

Portinho dentro.

 

Tudo era calmo e terno,

Àquela hora.

 

Tinham jurado

Ficar ali deitados

Sobre a areia,

Lado a lado,

Contemplando a lua

A subir no céu,

Entre as estrelas e o luar,

 

Inebriados do iodo

E brisa fresca,

Do quebrar de ondas

Que chegavam,

Vindas de longe.

 

Fora a hora inefável

 -Jamais se esquece -

De amar…

É bom sonhar!...

 

Em Vila Praia d’Âncora!

 

Berlim, 4 de Fevereiro de 2013

17h42m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A minha nora…

Vagamente, olhos no alto,
Iremos longe e certo,
Se o desânimo não nos tomar.
...
Seremos o que, de cada um,
Está traçado no quadro universal,
E o destino augusto desenhou
Com mão de mestre e paternal.

Não é o mal que o artista riscou
Ou quer.
Sim o bem.
Em toda a ordem e direcção.

A começar ao teu pé
E sem fim, até ao fim.

Seres de luz e vontade própria,
Nós somos guias de nós mesmos.

Dos nossos pés,
Nascem os passos,
Da nossa vida
Sua conta é o traço,
Que dará até onde der.

De olhos bem abertos
E de coração aceso,
Cabe fazer bem o bem.

Que o mal seja o menos,
E, logo, reparado.

Somos todos iguais.
Apesar da cor dos olhos
E da pele
Ou das vestes
Que o mundo tece,
Vende ou dá.

Como vaso das nora,
Que se enche
No segredo do poço fundo,
E vasa tudo o que traz,
À superfície,
Para regar em seu redor,
Ofereçamos tudo,
Deixemos ao sol
Que acabe o resto…

Rodemos os dias,
Que a vida tece,
Como as voltas férteis
Que a nora dá.

Ouvindo Hélène Grimaud, em 4º concerto de Beethoven
Berlim, 4 de Fevereiro de 2013
7h24m

A Minha Cabana

 

 

Levas-me até lá tão longe,

Quando o sol estava a nascer,

Vinha aí a vida, em força.

 

 Tantas esperanças lindas

Fervilhavam em mim.

Seria um professor.

Como o que eu tivera.

 

Correria pelo mundo.

Lindo de ver.

Beijando o chão.

 

Tudo eu sonhei.

Ardentemente.

Sempre a lutar.

Suei e …chorei…

 

Conseguindo  subir…

Vi as estrelas…

E vi o luar….

Vi brumas escuras

E… cataclismos.

 

Vi esplendores de alegria.

Num mar sem fim.

 

Torrentes de amor

Passaram por mim.

Deixaram riquezas de sonho,

Espalhadas pelo meu jardim…

 

Ouvindo José Cid…na Cabana

 

Berlim, 3 de Fevereiro de 2013

10h31m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sábado, 2 de fevereiro de 2013


Meu pensamento

 

 

Como fio d’água pura e fresca

Que sai da terra ,

De fonte desconhecida,

Limpa,inesgotável,

Nosso pensamento brota ,

Roda, trazendo luzes, sensações,

De tantas cores e formas.

Um caleidoscópio,

Sempre a girar.

 

Sua nascente, suas raízes,

Ninguém sabe ou vê.

 

Tantas cadeias

De gerações passadas,

Tantas faces vivas, como nós, 

Corações a arder.

Ficaram para trás

Presas a nós.

 

Viram estrelas,

Viram sóis a nascer

E sóis a pôr.

Sentiram a terra gigante,

Como mãe presente.

Ora a tremer

Ora a verdejar de pão.

 

De todos vem tudo,

O que agora somos,

Na proporção de cada um.  

 

Cumpre viver,

Não deixar parar

E acrescentar sempre

O melhor de nós …

 

Seguir em frente

Como bons estafetas .

 

Atentos à vida

Que nos anima

E faz correr.

Fazendo bem

O que deve ser.

 

Ouvindo Hélène Grimaud, em sonata nº 31 de Beethoven

 

Berlim, 3 de Fevereiro de 2013

8h3m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Noivado em Fevereiro

 

Voltou a cair neve,

Miudinha, quase líquida.

Já tapou o chão de gase, 

Como um véu suave,

Que tudo afaga e cobre, 

Preparando a terra triste,

Para a grande vaga em festa,

Que está para chegar.

Como em despedida.

 

De fininha e ténue,

Passou a espessa,

Em farrapinhos brancos,

Cada vez mais   grossos. 

Vêm desorientados,

Bruxuleando, pelo ar,

Em linhas sem nexo,

Como se viessem perdidos.

 

Sacudindo as asitas,

Passarinhos gaiatos.

Que vão brincar para o chão.

 Atirar bolinhas de neve

À  gente que passa.

Poisando nos carros

Em passeios breves.

 

Não tardará muito,

E o arraial da festa,

Em grande algazarra, 

Tingirá as árvores  negras,

 Lavradeiras alegres,

Com mantilhas  de branco,

Como se fossem noivas,

Subindo ao altar.

 

Como um pintor apaixonado, 

Que não mais descansa,

Enquanto não vir na tela,

O Fevereiro noivado,

Como lhe vai na alma.

 

Berlim, 2 de Fevereiro de 2013

9h18m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Saborosas razões da madrugada…

 

Quem primeiro se abrir ao dia

Que está a nascer,

Mais cedo, poderá ver à frente

O esplendor do sol nascente.

 

Alcançar a imensidão do mar,

Até onde ao longe,

Este esconde o céu

E um mar de estrelas

Que a seguir, hão-de brilhar.

 

Ouvir as ocultas ressonâncias

Que pairam em ondas ,

Nossos olhos não vêm

Mas são reais.

 

Entrelaçadas,

Numa lufa-lufa misteriosa,

São dóceis mensageiras

De tudo o que, de bom e mau,

Se passa.

 

Sentir a magia do odor

Que vem da terra

A despertar

Depois da bruma silenciosa

Da madrugada.

 

Mais cedo sentir,

Como é bom estar vivo

E navegar alegre

Sobre as ondas ,

Ora mansas ora bravas,

Do misterioso e rico mar da vida.

 

Poder acompanhar

Em espírito,

Como irmão que sente,

Os que, pelo mundo,

Sem razão, sofrem,

Por injustiça ou por desgraça.

 

E poder erguer as mãos

A dar graças

Por mais um dia …

Que de graça

Se vai viver.

 

Ouvindo Hélène Grimaud em Adágio de Mozart

 

Berlim, 1 de Fevereiro de 2013

7h34m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes