sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

fumaças de esperança...

Fumaças de esperança...

Saiam mais fumaças de esperança
Do telhado do Tribunal!...
Soem duma vez para sempre
Os clarins da libertação.

Se acabe este pesadelo infernal
Que se abateu sobre Portugal!...
Haja a coragem de por qualquer jeito
Mandar embora os malfeitores
Desta Nação ordeira
E que cumpre.

Como piratas assaltaram
Cadeiras que devem ter gente
Séria, capaz e com muita honra!...

Saltem das tumbas o brio da História,
Daqueles momentos
Em que foi traída!...

Faça-se um cerco à tirania
De quem manda e rouba
Por ordem alheia!...

Haja paz e liberdade
Para trabalhar o que temos,
No mar e terra....
Chega e sobeja!...

Não precisamos desta “União”
Que é só máscara
E nos rouba o pão!...

Haja coragem...Razões não faltam!...
Temos razão!

Ouvindo Wagner

Berlim, 20 de Dezembro de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

meus tios da Pedreira...

Meu tio Tónio...

Era um homem de poucas falas.
Quando falava,
Era a sério.
E tudo certo.

Não perdia tempo
Em tagarelar de cor.

Sempre concentrado
No que suas mãos faziam.
O que saía delas
Era bem feito.

Tanto cavavam a horta,
Como davam pontos,
Com suvela em punho,
Um bom sapateiro...
Não havia outro.

Quando me via chegar,
Apesar de não ser do sangue,
Todo ele sorria,
Como se eu fosse filho...
Enquanto a tia Deolinda,

Sempre tão zelosa,
Me enchia de carinhos,
Já não me via há tanto...
Uma cozinheira artista,
Com seus tachos ao lume.

Sempre na sua faina...
Ainda dava horas fora...

Como bem os lembro.
Tenho saudades deles.
Meus tios da Pedreira,
Onde havia o primo Carlos...
Que habilidade ele tinha
Com tão ricas mãos,
Não lhe havia segredos
Que elas não desvendassem.

Duraram mais de nove dezenas de anos!...

Berlim, 19 de Dezembro de 2013
9h30m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

cavador da alvorada...

Cavador da alvorada...

Como um cavador da alvorada,
Eu vou para o campo,

Abro a cancela.
Meu cão de guarda,
Salta da casota,
Sempre ofegante,
Vem ter comigo,
Se me atira ao peito.
De olhos luzindo.

Digo-lhe adeus
E parto...
Enxada ao ombro.
Bebendo do ar,
Que me fumega ao vento.

Os tamancos secos,
Ao pisarem o chão
Acordam o passaredo alegre
Que me esvoaça à frente.

Miro as ramadas.

- Como vai o vinho?...
- Aquelas oliveiras....
De tão carregadas,
Parecem gemer.
Quase chegam ao chão...

E aquelas tronchudas gordas
Que me cobrem o quintal....

Se desdobram em graça,
Aquelas folhinhas verdes,
Com bacalhau cozido,
Esperando o Natal...

Atravesso a ribeira fresca.

Como corre mansa.
Até as luzidias rãs,
Soletrando rans,
Me saltam ao caminho
Para me dizer olá...

Como um franciscano,
Dou bom dia aos ramos.
Que me escondem a lua.
Oiço os passarinhos
Que já querem ir brincar.

Levo no bornal,
Um naco de broa.
Com azeitonas das pretas.

Uma bilha de água
E outra maior de vinho...

Pode estar salgado
O bacalhau às postas,
O derradeiro carinho
Da minha patroa...
Antes de se ir deitar...

Aí vou andando
Até ao fim da aldeia.

Foi aquela leira de bênção
Que eu herdei dos meus...
Donde eu tiro pão.
Com a graça de Deus!...

Ouvindo Wagner, Cavalgada das Valquírias,

Berlim, 19 de Dezembro de 2013
6h52m
Joaquim Luís Mendes Gomes











viagem sideral...

Viagem sideral...

Acabo de aterrar numa praia deserta,
À borda do mar.

Numa nave espacial
Que o Menino Jesus
Pôs ao meu dispor...
Nestas férias de Natal.

Que linda viagem,
Por esse universo,
Sem fim,
Com galáxias
E astros...

As estrelas ao longe,
Diziam-me adeus...
E uma boa viagem.

Sabiam que eu descia à Terra.
Bolinha azul,
Uma, entre milhões,

Perguntavam-me se ali havia gente...

- vou ver os meus irmãos!...-lhes respondia.

Quem lá manda é o Rei-Sol...

- Dá-lhes um grande abraço nosso!...
E diz-lhe que sejam bons irmãos...
Se dêem bem
Como nós...

Todos diferentes...
Todos iguais...
Filhos de Deus!...

Berlim, 18 de Dezembro de 2013
21h27m
Joaquim Luís Mendes Gomes



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

retorno às origens...


Retorno às origens...

Depois dum longo caminho,
Por esse mundo moderno,
Onde de tudo acontece,
De bom e não,

Já se divisam ao longe,
Os cumes daquela serra
Alta e eriçada,
Beijando o céu,
Onde ainda há lobos
E coelhos bravos..

Escorrem-lhe nervuras
De fragas espessas,
Como lombas,
Cobertas de urzes
E giestas arbóreas,
Carvalheiras
E de pinheiros bravos,

Para um vale fundo e vasto.

Por ele, corre lento e bem escondido,
Um rio,
Mais ou menos estreito,
Em sinuosas curvas,
Cheias de sombra.
De salgueiros
E canas cerdes.

E há largos campos
De verdura em chama,
Onde, fartas,
Se apascentam vacas...
E também ovelhas.

Aqui e ali,
Nas clareiras,
E sobre as encostas soalheiras
Sucedem-se aldeias paradas no tempo,
,
Como castelos,
Cercadas de hortas
E ramadas de vinho.


Em constante porfia e desgarrada,
Cantam os galos, de raiva
Ou de vaidade,
Pelas suas galinhas,
Companheiras.

De capoeira.

E  ladram os cães de guarda,
Presos a longas trelas.
Uns guardiães!...
Só lá entra
Quem tem licença...

Por caminhos de terra negra,
Ou barrocas de lama seca.

Ainda há carros de bois,
Que chiam...chiam...
Ora graves,
Ora agudos,
Por sabão nos eixos.
A carga é muita!..

Espalhados pelos campos,
Solitários, aos pares,
Cantarolando ou assobiando,
Há alegres lavsadeiras
E homens da terra,
Derreados,
De sol a sol,
Que a lavram e a semeiam,

Desde o grão,
Até à espiga,
À enxada ou à raviça.

As sineiras tocam...tocam,
De hora a hora...

E o caminho segue e sobe,
Lado a lado com o ribeiro...
E ao longe, cada vez mais longe.
Há mais uma serra,
Atrás daquela...
Igual a ela.

Ouvindo peças variadas de música clássica

Berlim, 17 de Dezembro de 2013
7h58m
Joaquim Luís Mendes Gomes




domingo, 15 de dezembro de 2013

toca a levantar...

Toca a levantar...

Com pezinhos de lã,
Pé ante- pé,
Nasceu a manhã.

Um céu azulado,
Frio e gelado
Tingido de âmbar,
Com pedaços de nuvens,
Poisa nas copas das árvores,
Erguidas,
Castiçais apagados,
À espera de sol.

A mesma matilha de carros,
Faz compassos de espera,
Frente aos semáforos,
Esperando a vez.

Aí vão, no dealbar da semana,
Sem vontade nenhuma,
Para o ter de ser...

Das chaminés dos telhados,
Há baforadas,
Que vão pelo ar,
Aquecendo as casas,
Derramando café.

Entre o silêncio dormente,
Oiço encantado,
O rio de sons,
Que os dedos nervosos,
Bem controlados,
Dum Lang Lang,
Em fúria e calor,
Extrai do piano,
Com tanto rigor...

Meu pensamento saudoso
Me foge agarrado
Aos raiozinhos de sol,
À procura das ondas,
Lá longe, bailando,
Nos mares da Ericeira...

Ouvindo Lang Lang
Berlim, 16 de Dezembro de 2013
8h28m
Joaquim Luís Mendes Gomes






rio Mondego...

Rio Mondego


De gotinhas de orvalho,
Caídas dos céus,
Às pinguinhas,
Ao pé das estrelas,
Nasceu uma fontinha,
Debaixo das pedras.

Saíu uma biquinha,
Um fio de água.
Começou a correr.
Como um saltitão,
De pedra em pedra.
Saltou por ladeiras.
Rasgou por ravinas.
Cobriu-se de patas,
E como um lagarto,
Serpenteou por campinas.

Alargou por açudes,
Como um lago de cisnes.
Escondeu-se nas sombras.
Fez clareiras,
Cheias de areia.
Como praias a sério.

Deu de beber às manadas,
Cheias de sede.
Dançou com salgueiros.
Canaviais à porfia.
Chegou a Coimbra...
Verdadeiro doutor.

Entoou tão lindas baladas.
Encantou a cidade.
Numa feira de sonhos.
Garraiada em festa.
E seguiu adiante.

Por entre arrozais.
Por charcos de lama.
Semeou uma figueira,
Carregada de mel.
 Vieram as gentes,
De todos os lados,
E uma cidade nasceu.
À beira do mar.
Deram-lhe o nome.
Figueira da Foz!...

Ouvindo Brendan Perry

Berlim, 15 de Dezembro de 2013
14h26m
Joaquim Luís Mendes Gomes