quarta-feira, 13 de agosto de 2014

tringulo das bermudas^...

triângulo das bermudas...

nossa vida breve 
é um oceano extenso,
muito agitado,
ondas, ventos e ciclones.

Por vezes, um lago manso.
com muito verde à volta,
ondinhas doces,
e cisnes brancos.

Nosso barco, de remos frágeis,
uma casquinha de ovo,
se perde o leme,
fica à deriva,
ao sabor dos ventos,
das correntes fortes.

Sopram inclementes.
caem do céu.
emergem dos fundos.
se envolvem em nós,
como serpentes,
ficamos em pânico.
tudo perdido.
o fim do mundo.
em pouco tempo.

mas, é nesses instantes,
que a pequenês
nos fala claro
da dimensão
que temos.

nos indica
as amarras fortes.

que nosso horizonte
está muito para lá do mar...
vai da terra até ao Céu.

ouvindo gaita dos andes RTL novos talentos - Petruta Cecília Krupper

nasceu o dia com laivos de sol

Mafra, 13 de Agosto de 2014
6h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

inquietações...

inquietações...


Oiço água a cair do céu,
Como se fosse chuva.
E não é.

Olho o chão
E os campos da frente
Ao perto e ao longe.
Está tudo seco.
Com pó.
Como se fosse
Um deserto e verão.

Fico perplexo.
Duvido de mim.
Há avaria cá dentro,
Da grossa,
Por certo.

Carrego nas pernas
Dou pontapés.
A ver se está tudo igual.
E está.

Abro a porta.
Saio à rua.
Sensação tão estranha.
Nem quente nem fria.
Não corre uma aragem.
Não se ouve um ruído.
Um chilreio de ave.
As pedras paradas.
Não há uma folha que mexa.

Minha pele arrepia.
Falta-me o ar.
Meu tronco arfa e arqueia.
Contorce.

Queria ver gente.
Ver vida a pulsar.
Um desacato até.

Não sirvo para nada
E este mundo também.
Se me sinto sózinho.

Parece a guerra
Ou a morte que vem.
Oxalá eu esteja a sonhar...

Mafra, 12 de Agosto de 2014
6h50m
amanhecer luminoso com nuvens correndo do mar
Joaquim Luís Mendes Gomes

traves...

As traves...

Hirtas. Teimosas.
Fincam-se ao chão.
Se erguem no ar.
Desafiam o tempo
e seguram as casas.

Ora são mestras.
Ora empregadas.
Servem de pontes.
Sobem escadas.

São alavancas.
À força dos bois.
Puxam as noras.
Regam as terras.

No cimo das torres,
Aguentam os sinos.
Nas procissões,
Carregam andores.

Puxam os barcos,
Ferrando as águas,
À força dos remos.

Mastros ao vento,
Seguram as velas.
Caravelas no mar.
Correm o mundo.

Pedaços de troncos
Que a terra criou.
Cortaram-lhe os ramos.
Se mantêm de pé.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
7h12m
nasceu o dia
Joaquim Luís Mendes Gomes.

velas rasgadas...

velas rasgadas...


Trago dentro de mim
Um deserto de areia queimada.
Ardendo de raiva,
Moída na tineira do sol.

Me atiro as feras
E as mordo assanhado,
Com vontade mortal.

Ponho em mim todas as forças da terra
Que brotam cá dentro.

Dá-me vontade de quebrar tudo
E fugir para o egipto.


Onde nem as pirâmides morreram,
Regadas de sol.

Pareço um fantasma esquecido,
Parado no tempo.

Minhas velas rasgaram,
Caíram ao mar.

Nada mais espero deste mundo finito.
Inundado de mal.

Me atiro para as nuvens.
Me transportem ao céu...

ouvindo Rachmaninov, concerto nº 3

"setemomentos", Mafra, 11 de Agosto de 2014

10h6m
Joaquim Luis Mendes Gomes
 



domingo, 10 de agosto de 2014

as minhas mãos...

Minhas mãos..

São cegas as minhas mãos.
Só sabem fazer bonecos e gatafunhos.
Metidas consigo.
Só ligam aos dedos.

Desprezam as mensagens
Que vêm da alma.

Entram pelos olhos,
Como buracos negros,

Desprezam o sol e a luz
E todas as cores lindas
Da Natureza.

São surdas.Como duas pedras.
Não ouvem os passarinhos
Nem o marulhar lento
Do mar cansado.

Não choram
Nem vertem lágrimas.
São dois rochedos
Que enfurecem e metem medo.

Têm ciúmes dos pés
Que andam no chão,
Tão cordatos e submissos
À voz do dono.
E elas não.

São moedas de duas faces,
Uma trabalha, cria calos,
Uma meiga.
A outra é falsa.
Só dá para o beija-mão.

Mas gosto delas.
São as penas das minhas asas.

Levam-me à boca
A colher da sopa
E do caldo verde.

Cuidam de mim.
Seguram-me à escada
Não me deixam cair.

Lavam-me o corpo
E coçam as costas.
Aparam-me a barba.

Ficam ferozes,
Com ameaças.

São carinhosas,
Para com a atenção.
São muito gratas.

São companheiras.
Escrevem-me as cartas.
Ditam meus versos.
Tocam piano.
E jogam à bisca.

Põem em brasa
E levam-me aos lábios
O cachimbo da paz.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
6h12m
um amanhecer cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes




Minhas mãos..

São cegas as minhas mãos.
Só sabem fazer bonecos e gatafunhos.
Metidas consigo.
Só ligam aos dedos.

Desprezam as mensagens
Que vêm da alma.

Entram pelos olhos,
Como buracos negros,

Desprezam o sol e a luz
E todas as cores lindas
Da Natureza.

São surdas.Como duas pedras.
Não ouvem os passarinhos
Nem o marulhar lento
Do mar cansado.

Não choram
Nem vertem lágrimas.
São dois rochedos
Que enfurecem e metem medo.

Têm ciúmes dos pés
Que andam no chão,
Tão cordatos e submissos
À voz do dono.
E elas não.

São moedas de duas faces,
Uma trabalha, cria calos,
Uma meiga.
A outra é falsa.
Só dá para o beija-mão.

Mas gosto delas.
São as penas das minhas asas.

Levam-me à boca
A colher da sopa
E do caldo verde.

Cuidam de mim.
Seguram-me à escada
Não me deixam cair.

Lavam-me o corpo
E coçam as costas.
Aparam-me a barba.

Ficam ferozes,
Com ameaças.

São carinhosas,
Para com a atenção.
São muito gratas.

São companheiras.
Escrevem-me as cartas.
Ditam meus versos.
Tocam piano.
E jogam à bisca.

Põem em brasa
E levam-me aos lábios
O cachimbo da paz.

Mafra, 11 de Agosto de 2014
6h12m
um amanhecer cinzento

Joaquim Luís Mendes Gomes





















debaixo duma pedra...

debaixo duma pedra...

havia uma pedra angulosa,
cerca de minha casa.

sempre a vi ali.
inerte e morta.

passava sobre ela.
e até me sentava.

era só pedra.

um dia, levantei-a.

encontrei uma toca.
com meia dúzia de ovos.

fiquei intrigado.
de que seriam?

voltei a baixá-la
e fiquei à coca.

dias depois, ao nascer do dia,
o sol abria.

ali à volta,
uma meia dúzia de chascos,
muito novinhos,
se bamboleava,
cantarolando,
debicando o chão.

em grande festa.
alheio ao perigo.

um a um, peguei em todos.
fui guardá-los numa gaiola.
cuidei deles.

foram crescendo,
pareciam felizes,
batiam as asitas
queriam voar.

abri-lhes a porta.
levantaram voo.
sempre por perto.

a noite veio.
eles não.

no dia seguinte,
ao amanhecer,
fiquei à espera.

eis que da toca,
um a um, sairam
e ficaram voando,
por ali às voltas.
ao pé da gaiola.

abri-lhes a porta.

um a um, entraram.
comeram o que havia
e depois sairam...

nunca mais voltaram.

Mafra, 10 de Agosto de 2014
Tarde de sol
Joaquim Luís Mendes Gomes




por 25 tostões...

Por vinte e cinco tostões...



Tenho escondido na minha biblioteca,
Um livrinho, de capas pretas,
Velhinho.

Comprei-o, há muito,
Naquela casinha baixinha,
Ao lado da Santa.

É de orações.
Pedaços de missa.
A Salvé Rainha.
Oração tão bonita.
Nunca mais a esqueci.

Custou vinte cinco tostões.
Que eu encontrei,
Perdidos no chão,
Embrulhados num lenço.
D'algum pedinte mendigo,
No centro da vila.

Só Deus sabe quem foi...

"setemomentos", Mafra, 10 de Agosto de 2014
9h9m
Joaquim Luís Mendes Gomes