quinta-feira, 8 de agosto de 2013

poema negro...


Poema negro...

Com ou sem razão,
se queres que a situação entre nós não piore mais...

“Já não tens autoridade para me dares sermões,

 

 
tenho 32 anos!?...”

...................................................................... 

- Que me dirias tu, meu Pai, que estás no céu,

se eu te dissesse esta blasfémia?

Só porque, em resposta ao seu "sermão"...

- “não me mandes mails às seis da manhã... que me acordas...”
...................................    ..................

lhe contrapus:

 

“meu filho, deves abster-te de me ligares o telefone,

 a qualquer hora do dia ou da noite,

como sempre fizeste

a contar os teus problemas...

e reduzires o tempo de conversa ao necessário e suficiente...

em vez de ficares horas sem fim..até à exaustão”

 

Que pedrada grossa e mortal na minha cabeça!...

Deixou-me a sangrar e completamente perdido...

sem fala...

 

-tanta prova de carinho,

tanta abnegação...- Deus sabe ..
- para ser quem é!...
 

- que fiz eu para merecer isto, aos mais de setenta anos?...

- que devo fazer, meu Pai?...

Estou aturdido!...

Nunca é tarde para amar...
nem para sofrer!...

 

Berlim, 8 de Agosto de 2013

17h1m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 6 de agosto de 2013

minhas saudades mortas...


Saudades mortas...

 

Lanço ao chão,

como folhas secas,

minhas saudades mortas.

 

Vieram da infância.

Da idade adulta.

Longo caminho,

cheio de sol,

também de espinhos...

 

Meu sótão velho

está cheio delas.

Fui-as guardando,

sempre à espera

de poderem prestar.

 

Empilhadas, como caixotes,

já são cadáveres,

ou cacos velhos.

Não valem nada.

Ocupam espaço

e fazem peso.

 

Foram verdades.

Foram sonhos.

Foram mentiras.

Que me envolveram.

Fizeram feridas

Causaram dor...

Que o tempo sarou.

Tudo passou.

Agora, são cinzas.

 

Voltem à terra virgem

donde nasceram,

caules com ramos

e frutos vivos,

enquanto duraram.

 

Sejam repasto só.

No segredo da terra.

É para o que servem.

 

Berlim, 7 de Agosto de 2013

7h14m

Joaquim Luís Mendes Gomes

tremendo de frio...


Tremendo de frio...

 

 

Morre gelada

sua alma penada,

tremendo de frio,

coberta de penas.

 

A neve voltou,

de repente,

 e sem fim.

 

Bastaria

um farrapinho de sol,

caído do céu

ou só...

o calor duma lágrima

ou sorriso d’alguém

para deixar de penar,

mesmo com neve

e com vento.

 

Ouvindo “ ncturnos” de Chopin

 

Berlim, 6 de Agosto de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 4 de agosto de 2013

as silhuetas...


As silhuetas

 

Não gosto das silhuetas.

Não têm faces

Não têm facetas.

 

São só riscos curvos,

E ângulos rectos e oblíquos.

 

Não têm curvas,

São só rectas.

Só segmentos.

Sem sentimentos.

 

Nunca sorriem.

Fazem caretas,

Disparam chispas,

Às vezes setas.

Atiçam faúlhas.

Sem labaredas.

 

São sempre sisudas.

Por vezes, tristes.

Nunca beijaram.

Nunca sonharam.

São surdas-mudas.

 

Não vestem roupa.

Estão sempre nuas.

 

Fazem de conta

Que não querem amar

Mas são amantes

E apaixonadas.

 

Gostam de festas.

Recebem prendas,

Que guardam secretas.

Como se fossem noivas.

Vestidas pretas.

 

Fazem de loucas,

São muito espertas,

Para darem nas vistas...

 

Berlim, 4 de Agosto de 2013

20h56m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 3 de agosto de 2013

bailando à chuva...de Agosto


Bailando à chuva...de Agosto

 

Depois de mortificante canícula

que parecia infinita,

o céu turvou

e uma chuva grossa bem puxada, tropical,

como vaga benfazeja,

ou deliciosa sinfonia,

refrescou nossos corpos e almas,

quase em coma,

de tanta sede e fome,

duma suave frescura matinal ...

 

Como bálsamo inebriante,

de tão puro,

que reverdece o mais lindo ramo de rosas rubras

que murcharam em botão.

 

Foi-se embora,

como um fantasma terrível aturdido,

aquela nuvem bassa,

de tristeza e desespero,

que esmagava tudo e todos.

 

Até o passaredo,

que se havia escondido nas suas tocas,

em segredo,

acudiu alegre em bandos joviais,

bailando largos passes sucessivos,

com a mesma graça de cardumes,

a dançarem jubilosos no alto mar.

 

Por encanto milagroso de alegria,

se varreu no esquecimento,

num ápice sem saudade,

toda a tristeza negra

e desespero que se sentia...

 

ouvindo concerto em lá menor de Mendelssohn, em violino

 

 

Berlim, 4 de Agosto de 2013

6h42m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

o despertar do dia em Berlim...

O despontar do dia, em Berlim
 
A suavidade da luz chega lenta
e vai vestindo de azul o céu.
De verde a terra.
De branco as nuvens
que navegam ao sabor do vento
em fumarolas.
 
Reluzem das casas sonolentas,
as janelas envidraçadas do casario.
 
Aqui e ali, uma chaminé altiva
lança ao ar volutas de fumo
prenunciando a vida interna
que desperta e se agita.
 
Os corvos negros e as pombas,
se despicam de árvore em árvore,
para o chão,
em procura de alimento.
 
Pelas estradas, recobertas de folhedo,
vai engrossando o cortejo louco
do corre-corre...
 
Acendem-se as vitrines dos cafés e bares,
à borda das ruas,
enquanto as máquinas aquecem,
a toda a força, suas caldeiras
para o bica a bica.
 
Se recolhe aos vestiários em chapa de zinco,
o tropel nocturno das vassouras
que limparam tudo a pente fino.
 
Contrariados mas conformados,
avançam para os elevadores, às baforadas,
os funcionários da banca, dos seguros e ministérios.
 
Giram pelas ruas, aflitas,
as carrinhas desencontradas
do 112 e 115.
 
Em pouco tempo,
Se põe em marcha
Esta grande mole de mundo ordeiro
Que disputa a vida, com certezas...
 
 
Berlim, 3 de Agosto de 2013
6h41m
Joaquim Luís Mendes Gomes

barca de noé...


Barca de Noé...

 

Aportei em Berlim,

Na minha barca de Noé.

Com toda a família,

A bordo.

 

Até o cão e o gato...

 

A fugir do dilúvio

Que grassa e desgraça

O meu País.

 

Não vieram do mar

Que é seu amigo,

E irmão...

As águas de enxofre

Que o sepultam.

 

Vieram da Europa sulfúrica,

Capitalista e financeira.

Pelas mãos da troika verme

E da cobardia infame

De quem o vem governando,

Depois de Abril.

 

Minha idade já não dá

Para lhes fazer frente,

D’armas na mão...

Porque só assim,

Se lhes porá o fim...

 

Nunca esperei ver

Tanta infâmia a arder

E tanta apatia em combate-la...

 

Berlim, 2 de Agosto de 2013

15h20m

Joaquim Luís Mendes Gomes